Séries 29


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Rio Pungué, Parque Nacional da Gorongosa, Março de 2008
Foto de Francisco Máximo

Por questões de trabalho, tenho viajado bastante diariamente nas estradas de Moçambique. Na sexta-feira assisti, infelizmente, a uma cena completamente surreal por parte da polícia moçambicana.

Era noite, cerca das 21:00 e vinha de Chimoio para a Beira. Viajar de noite nestas estradas é uma aventura, porque os moçambicanos andam a pé e de bicicleta ao longo da estrada como se estivessem a passear em casa. E andam sem qualquer tipo de iluminação ou sinalização. O motorista que me acompanha diariamente, felizmente, é cauteloso e passa a viagem toda a buzinar.

Quando estávamos a passar por uma pequena cidade já perto da Beira, Dondo, passa por nós um carro meio tuning em alta velocidade mesmo em frente a um posto policial. Cerca de 2 km à frente do local da ultrapassagem, apercebemo-nos que o carro está parado no meio da estrada e a fazer marcha-atrás. Aproximamo-nos devagar e quando estamos a chegar vemos um corpo de um homem estendido no meio da estrada, projectado para a outra faixa de rodagem, numa posição tão torcida que se percebia que haveriam várias fracturas nas pernas, talvez coluna e sabe-se lá mais onde.

“Porra, o gajo foi atropelado!” diz o motorista. O condutor do carro da frente, um jovem moçambicano, sai do carro, olha para o homem e fica em pânico sem saber o que fazer.
“tem que afastar o homem do meio da estrada e colocá-lo na berma!” diz o motorista.
“estou a pedir ajuda” diz o jovem. “Estou a pedir que chamem ajuda”. O motorista diz que sim, inverte a marcha e dirige-se rapidamente para o posto policial que havia 2 km atrás.

Chegamos, vemos imediatamente um polícia e o motorista conta-lhe o sucedido.
“tá a respirar?” pergunta o polícia.
“Está, não está ainda morto” diz o motorista. “vão lá e chamem uma ambulância”
“Não posso sair daqui agora” diz o polícia “para irmos lá depois tínhamos que fazer medições…”
Espantado com a conversa intervenho pela primeira vez “ Mas chame uma ambulância! O homem precisa de ir para o hospital”
“ O condutor que o atropelou é que tem a obrigação de o levar para o hospital!” afirma o polícia como se não fosse nada com ele.
“ mas o homem está todo partido, precisa de tratamento médico” insisto.
“o condutor que o leve!” reafirma o polícia.
“Espero que você nunca precise de uma ambulância! Vamos embora que já estamos atrasados!” digo eu para o motorista, zangado e incrédulo com a atitude daquele animal.

E quando chegamos ao local do acidente, ajudamos a transportar aquele corpo todo disforme para o carro. Não sei se o matámos enquanto o transportávamos para o carro… no final e para rematar, diz o motorista: “Vá lá, o homem teve sorte, o condutor até parou, que a esta hora, xii… ninguém pára!”

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