Segunda-feira, Fevereiro 25, 2013

Social 37




Já fotografei muitas crianças. Normalmente é fácil "tirar" um sorriso espontâneo. Nesta aldeia não havia  nada que eu pudesse fazer para arrancar um sorriso a estas crianças, marcadas profundamente pela guerra. Uma gravidade na expressão que me impressionou e que diz bem das marcas que estas crianças terão vincadas na alma.

Terça-feira, Fevereiro 12, 2013

Social 36




Infelizmente, os meses de Janeiro e Fevereiro foram e continuam extremamente chuvosos na África Austral. Como consequência, para além da saturação natural da terra fortemente ensopada, os leitos dos principais rios de Moçambique que vêm dos países vizinhos, aumentaram drasticamente e provocaram graves inundações em vastas áreas de Moçambique.
O resultado foi catastrófico. Milhares de desalojados que perderam todos os seus bens amealhados numa vida de trabalho mal remunerado, dezenas de mortos e milhões de dólares de prejuízos na ainda débil economia moçambicana.
Uma das regiões do sul de Moçambique mais afetada, foi a cidade de Chókwe, uma cidade de interior que não resistiu à fúria das águas do rio Limpopo.
O cenário durante e após as cheias era de verdadeira emergência humanitária. A cidade ficou sem energia, sem água potável, sem comida.
Perante este estado de calamidade, vieram a público as autoridades dizer que era necessário tomar medidas para que estas catástrofes naturais não se repitam no futuro, que será necessário construir uma barragem para tentar prender a água, que se devem reabilitar e melhorar os diques de segurança da cidade e mais um sem número de medidas a propor e a estudar para se implementar no futuro.
Enquanto se ouviam estes discursos, assaltaram algumas questões no espírito de muita gente, que resumo apenas numa: no ano 2000 houve um desastre natural em tudo semelhante a este. Nessa altura, propuseram-se exatamente as mesmas medidas que agora se replicaram, e a pergunta que fica no ar é, o que se fez de 2000 até 2013 para que estas tragédias se minimizem?
No entretanto, as populações sofrem na pele flagelos humanos e vivem em condições desumanas à espera da caridade das mais variadas organizações e da sociedade civil, anónima e solidária.
Água, comida, roupa, medicamentos e outros bens de primeira necessidade são absolutamente essenciais para minimizar o sofrimento de milhares de pessoas que, num fluxo de água de horas,  deixaram de ser só pobres e passaram a ser dependentes da ajuda alheia.
Um dos muitos movimentos anónimos que se sensibilizaram e solidarizaram com o povo de Chókwe, um grupo de pessoas solidárias, levou os bens essenciais que pode recolher para confortar as vidas levadas repentinamente pela água e pela lama. 
Chegados a Chókwe, confrontados com a dura realidade, puderam testemunhar que mesmo no sofrimento e privados de tudo, havia um sorriso de um povo que os esperava, não por agradecimento, mas porque acreditam que um dia as suas vidas melhorarão. 
A esperança espelhada nos olhos faz acreditar que este povo é muito nobre no sofrimento e que merece mais atenção e carinho.

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2013

Social 35



A minha capacidade para me surpreender vai diminuindo à medida que vou envelhecendo. É natural, porque a acumulação de experiências deixa menos lugar à novidade. No entanto, e pese embora estar sempre disponível para novas ideias que me parecem válidas e consequentes, confesso que ontem fiquei completamente surpreendido. A surpresa rapidamente passou à estupefação e à indignação.
Vem esta prosa a propósito das declarações de um banqueiro português, Fernando Ulrich de seu nome, que afirmou que, "se os sem abrigo aguentam, nós também aguentamos".
Esta frase é lapidar e mostra de uma forma assustadora o que se passa na mente desta gente. Desta gente sim, desta gente, da banca e da alta finança, comprovadamente responsável pela intoxicação da economia, comprovadamente sugadores dos contribuintes, que sustentam a irresponsabilidade, a ganância e a distribuição indecorosa de lucros.
Depois, há um pronome pessoal ali metido no meio da frase que me indignou profundamente. "nós".
Mas nós quem? nós eles, os banqueiros? 
Se os nós forem eles, os banqueiros, o descaramento, o despudor e a insensibilidade na analogia são inqualificáveis. Até a afirmação do pobre do nosso presidente que disse que nem tinha dinheiro para as despesas parece pueril.
Se o nós formos nós, os contribuintes, a mensagem que daí decorre é: porque nos queixamos, afinal ainda não estamos debaixo da ponte e portanto há uma margem de manobra de uns milhões de cidadãos que se devem aguentar, até ficarem sem abrigo, porque ainda assim, aguentam.
Seja o que for que aquele senhor quis dizer, é profundamente aviltante. Se alguém tiver que ir para debaixo de uma ponte, que vão eles, que parece que aguentam e deixem os sem abrigo em paz!

Quinta-feira, Janeiro 31, 2013

Ambiências 61




Andar no mato, a pé, rodeado de vida selvagem, é uma experiência inesquecível. Por um lado sentimos-nos em plena harmonia com a natureza, integrados nos vários elementos naturais aproveitando -os todos para minorar o desconforto ou necessidades. Por outro lado, sentimos-nos pequenos, vulneráveis, atentos a todo e qualquer sinal de perigo, com níveis de adrenalina que nos despertam. Com o passar do tempo, aprendemos a interpretar os sinais à nossa volta, os sons, as marcas, os rastos e os movimentos dos animais que "falam connosco" e nos dão as várias notícias do dia e da noite que passou.
O som de um determinado pássaro pode ser indicativo da presença de determinado animal selvagem uma vez que eles criam simbioses com mamíferos que não convém encontrar de perto e de forma desprevenida, como é o caso dos búfalos e hipopótamos.
Os movimentos dos babuínos, de algumas aves e de antílopes permitem-nos avaliar e precaver da presença de grandes felinos, que também não convém encarar desprevenidamente.
Os rasto no mato e as marcas frescas nas árvores permitem-nos avaliar a presença recente de elefantes. Na foto de cima, um guia observa o mato em redor à procura de sinais de vida selvagem, no cimo de um tronco de um enorme embondeiro (árvore mítica africana), derrubado pela actividade dos elefantes. É muito comum ver árvores caídas por causa dos elefantes, é muito mais raro ver embondeiros deste porte.

Sábado, Janeiro 26, 2013

Ambiências 60



Tive a felicidade de fazer uma viagem que me ficará gravada na memória para sempre. No Botswana, entre as várias reservas naturais por onde passei, há uma especial, o Delta do Okavango. 
O Delta do Okavango é onde o rio Okavango se espraia e inunda uma área superior a 10.000 quilómetros quadrados, rasgando a Terra e talhando a vegetação num serpentear admirável. É uma região com uma beleza extraordinária, onde a natureza está totalmente ao seu destino e com uma intervenção humana mínima e que se expressa nas pouquíssimas construções lá existentes. É uma área de conservação por excelência e serve de habitat para centenas de espécies de pássaros. Os grandes mamíferos encontram aqui alimento durante todo o ano sendo por isso um vasto território de milhares de elefantes, búfalos, gnus e antílopes, hipopótamos e, claro, os felinos.
A rede de estradas (picadas para ser mais preciso) existente é pouco significativa e só se podem utilizar na estação seca, chegar ao coração do Delta é possível apenas de avião. Este é um registo aéreo.

Domingo, Dezembro 02, 2012

Social 34


Fotografia de António Silva (Agência Lusa)


Está a decorrer em Maputo uma iniciativa inédita em Moçambique. Um planetário insuflável está a ser utilizado para dinamizar a Astronomia em Maputo. O público-alvo são os alunos e professores da Escola Portuguesa de Moçambique e de duas escolas públicas moçambicanas, a Josina Machel e a Francisco Manyanga. No total, mais de mil alunos serão abrangidos por esta atividade.

Esta iniciativa, no âmbito do projeto "O céu nas nossas mãos" resultou de uma parceria da Escola Portuguesa de Moçambique, do Centro de Ciência Viva de Sintra e teve a colaboração e o apadrinhamento do Ministério de Educação de Moçambique, que se fez representar ao mais alto nível. 

A sessão de abertura foi amplamente difundida nos principais órgãos de comunicação social de Moçambique, jornais e televisões. Os ecos desta iniciativa propagaram-se também a Portugal através da RTP África, da agência Lusa e do site do Pavilhão do Conhecimento de Lisboa.

O mais gratificante, foi a reação dos alunos às sessões exibidas. No fina de cada sessão, maravilhados com a experiência, tinham sede de beber conhecimento, colocando sempre muitas perguntas, muitas verdadeiramente surpreendentes. A expressão que um dos alunos moçambicanos utilizou e que ficará na memória desta iniciativa foi, quando estava dento do planetário e perguntado se já tinha visto um planetário antes, ele respondeu: "Sim, nos meus sonhos..."

Segunda-feira, Novembro 12, 2012

Social 33




Conduzir nas ruas de Maputo à noite tornou-se uma tarefa a raiar o insuportável!

Depois desta frase, várias perguntas se levantam na mente de quem a leu:
-   
-        Será perigoso porque o transito é insuportável e os condutores são inconscientes e a palavra civismo e o respeito mínimo pelas regras de trânsito são conceitos desconhecidos no léxico dos condutores moçambicanos?
-       Será perigoso porque a cidade à noite tornou-se perigosa na convivência, com encontros indesejáveis protagonizados por gangues malfeitores?
-       Será perigoso porque as estradas estão em tão mau estado que conduzir sem ter um acidente ou sem danificar o carro é uma improbabilidade cada vez menor?
-        
Bom, diria que qualquer uma destas perguntas corresponderia a uma boa resposta á afirmação anterior mas a verdade é que o problema principal é a polícia.

A polícia, que supostamente está para proteger o estado de direito, as liberdades e garantias dos cidadãos, é uma entidade a evitar a todo o custo. Porquê? Porque o assédio à corrupção, ao refresco está a atingir limites insuportáveis.

Exemplo:

Polícia: mostre-me a carta e os documentos do carro!
Cidadão: com certeza sr. Agente.
Interregno: Polícia a olhar para os documentos sem nenhum interesse e sem nenhum profissionalismo na autenticidade dos documentos.
Polícia: você bebeu! Vai ter que ir à esquadra fazer o teste de álcool!
Cidadão: Não sr. Agente, não bebi e não tenho nenhum problema em fazer o teste.
Polícia: tem que nos acompanhar à esquadra para fazer o teste!
Cidadão: Sr. Agente, não vou a lugar nenhum, se quiser fazer-me o teste estou aqui disponível, traga a máquina e eu faço.
Polícia: Está a desrespeitar a minha ordem?
Cidadão: Não sr. Agente, mas não me vou deslocar a lugar nenhum, estou aqui disponível para fazer o teste.
Polícia: Vejo que está nervoso! Vejo que está a desrespeitar uma ordem da autoridade moçambicana! Eu tenho algemas e vou ter que o prender por desrespeitar a República de Moçambique!!!
Cidadão: Não sr. Agente, não estou a desrespeitar nenhuma ordem, estou disponível para fazer o teste, mas não vou sair daqui e não vou conduzir para nenhuma esquadra...
Polícia: você não está a colaborar comigo e vai arranjar problemas!
Cidadão: mas sr. Agente estou aqui a colaborar e a mostrar-me disponível para fazer o teste de álcool que o sr. quiser que eu faça!
Polícia: você sabe como evitar estes problemas, está frio, é tarde e se todos colaborarmos estaremos todos em casa daqui a pouco...
Cidadão: sr. Agente você está a pedir que eu o suborne? Que lhe dê um refresco? Mas porquê se eu estou legal, os meus documentos estão legais e eu não cometi nenhuma ilegalidade?
Polícia: você está a dizer que eu lhe pedi refresco? Você está a insultar a polícia da República de Moçambique? Posso prendê-lo por isso!!!
Cidadão: mas então em que ficamos?
Polícia: É tarde, podemos resolver isto e irmos todos para casa...
Cidadão: Sr. Agente, sabe qual é a minha profissão? Sou professor! Sabe o que eu ensino aos meus alunos? Que a honestidade é uma característica que cada um de nós tem que ter exigir aos outros!
Polícia: você é professor?
Cidadão: Sou! E não tenho que pagar nada porque ando a circular nas ruas de Maputo à noite! Não bebi, tenho os documentos em ordem!
Polícia: Pai! Estamos aqui uns para os outros! Eu tenho frio...
(chegado a este ponto, no mínimo 20 a 30 minutos de confronto e ameaças, a história diverge consoante o polícia)

Final alternativo 1:
Cidadão: Sr. Mas nós vamos cansar um ao outro? Sabia que os homens à medida que envelhecem dormem cada vez menos? Se quiser cansar-me, vamos ficar os dois aqui a noite toda, mas eu amanhã estou melhor que você, porque preciso de dormir menos!
Polícia: (onomatopeica)Uhhha! Você é velho?
Cidadão: que idade é que você tem?
Polícia: 24!
Cidadão: tem quase a idade do meu filho mais velho!
Polícia: Pai, afinal, vamos todos dormir...
Cidadão: Bom descanso...

Final alternativo 2:
Cidadão: Sr. Tenho vários filhos, não sou rico, não tenho que pagar dinheiro a você!
Polícia: Quantos filhos você tem?
Cidadão: Seis! De três mulheres!
Polícia: (onomatopeica) shêee! Eu tenho três! Mas quando chegar à sua idade terei dez!
Cidadão: Felicidades sr. Agente! Espero que os consiga sustentar!
Polícia: Hei de conseguir! Bom descanso pai!

Final alternativo 3:
Polícia: Sr. Vamos lá resolver isto!
Cidadão: Vamos! Quero ir para casa, não estou a transgredir nenhuma lei do código da estrada!
Polícia: Tá bom! Boa noite!

Estas histórias que vos conto, demoraram entre 30 a 45 minutos de luta com a polícia. Asseguro-vos que nas sextas e nos sábados estas histórias repetem-se por três!!

Conclusão: a miséria é uma condição pantanosa!

Terça-feira, Julho 17, 2012

Sugestão 15 - Ghorwane





No ambito da cimeira da CPLP que se está a realizar em Maputo, houve ontem um concerto que juntou três nomes consagrados da música moçambicana. Stewart Sukuma, Mingas e Ghorwane.
Ficam aqui uns registos da banda mais antiga que esteve em palco, os Ghorwane. 


Ghorwane é uma banda que se formou em 1983 e o seu nome é o mesmo de um lago na província de Gaza, um lago que nunca seca, diz-se. É uma das bandas mais respeitadas da música moçambicana e o seu estilo mistura-se com várias fusões tradicionais moçambicanas e de outras influências africanas.




A sua história está intimamente ligada à história da libertação e construção do Moçambique independente, com um trajeto recheado de vicissitudes, onde se destacam os assassinatos de dois dos fundadores: Zeca Alage em 1993 e Pedro Langa em 2001.




Ontem brindaram-nos com mais um excelente concerto de que aqui ficam uns registos. Kanimambo!

Segunda-feira, Julho 09, 2012

Sugestão 14

Finalmente o autor deste blog, decidiu materializar uma pequena parte dos seus registos fotográficos num suporte físico perene: um livro.

Até 2007, o quotidiano em torno do elemento humano era o meu caminho em termos fotográficos. No entanto, naquele ano saí de Portugal para trabalhar num projeto de conservação no Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique.


Esta experiência mudou a minha vida pessoal e criou uma relação mais íntima e cúmplice no olhar sobre a natureza e a vida selvagem. A experiência africana abriu-me novos horizontes que pretendo explorar através da câmara.


Fica a sugestão, um livro de registos da África Oriental, realizados em cinco parques naturais do Quénia e da Tanzânia.

Quarta-feira, Abril 25, 2012

25-4-12




Passados alguns anos de estar a viver em Moçambique, deixo desta vez, em jeito de celebração desta data e do que ela simboliza para os dois países, um poema de um grande autor moçambicano, José Craveirinha. Um poema cujo nome é 'O meu preço'.

Eu cidadão anónimo
do País que mais amo sem dizer o nome
se é para me dar de corpo e alma
dou-me todo como daquela vez em Chaimite.
Dou-me em troca de mil crianças felizes
nenhum velho a pedir esmola
uma escola em cada bairro
salário justo nas oficinas
filas de camiões carregados de hortaliças
um exército de operários todos com serviço
um tesouro de belas raparigas maravilhando as praias
e ao vento da minha terra uma grande bandeira sem quinas.


Se é para me dar
dou-me de graça por conta disso.


Mas se é para me vender
vendo-me mas vendo-me muito caro.


Ao preço incondicional
de quanto me pode custar este poema. 

Terça-feira, Março 20, 2012

Ambiências 59

Mombaça, Quénia, Dezembro de 2011


(composição de duas fotografias)


Aquando da minha viagem no Quénia no final de 2011, tinha previsto um itinerário que partiria de Nairobi até ao Oceano Indico, com destino a Mombaça.  Depois de ter pesquisado várias opções, que passariam por avião ou carro, soube de uma terceira opção, o comboio.

Entusiasmado com a ideia de uma viagem de comboio que permitiria viajar e ver regiões mais recônditas do Quénia procurei saber mais informações sobre esta opção. Após algumas pesquisas e trocas de emails com amigos que vivem em Nairobi, percebi que esta viagem era uma excelente opção por conciliar a viagem, a descoberta e a aventura.

O horário previsto era sair de Nairobi às 19:00 h, e chegar a Mombaça às 10:00 da manhã do dia seguinte. O jantar e o pequeno almoço eram servidos na carruagem restaurante e a noite era passada num compartimento com duas camas. Os meus amigos disseram-me que era uma viagem a fazer, agradável e tranquila.

Entretanto, em Nairobi, percebi que o ambiente na cidade era extremamente tenso e que resultava de mais uma crise com o movimento terrorista da milícia radical somali Al Shabab. Tinham havido recentemente combates com este movimento na fronteira da Somália e retaliações com atentados à Granada em Nairobi. Não havia restaurante, centro comercial ou outra zona de acesso público onde não verificassem todas as pessoas, com detetores de metais, revistassem malas ou mochilas e mesmo os carros quando acediam aos parques de estacionamento eram revistados manualmente e com espelhos para o despiste de engenhos explosivos.  Aliás, este conflito não se apaziguou e há uma semana houve um violento atentado numa zona muito movimentada da capital, num terminal de transportes públicos, morreram seis pessoas e várias dezenas ficaram feridas.

Depois de viver esta autentica paranoia securitária própria de um estado de guerra, comecei a pensar se tinha sido boa a opção de viajar de comboio numa viagem tão longa e que parava em tantas localidades, tornando este comboio um alvo apetecido de quem quiser ter atenções mediáticas para alimentar a causa.

Às 18:30, cheguei à estação e deparei-me com milhares de pessoas que se amontoavam na estação à espera do comboio. Curiosamente a entrada na estação não tinha qualquer procedimento de segurança. De início apreensivo, comecei a relaxar depois de conversar com vários turistas das dezenas que lá estavam para apanhar este comboio. Fiquei ainda mais relaxado quando vi muitas famílias de gente dos mais variados lugares do ocidente, com imensas crianças que esperavam com expectativa o comboio.

Às 19:00 como previsto o comboio chegou à gare e fiquei incrédulo com a pontualidade. Enganei-me, o comboio tinha chegado de Mombaça, ia naquele momento para a lavagem, limpeza, ser fornecido de comida e roupa de cama.

Esperei, esperámos todos. Às 23:00 já estávamos todos cansados da espera, com fome, porque era suposto haver um jantar no comboio às 20:00. Às 23:00 chega novamente o comboio, desta vez preparado para partir. Começámos todos a entrar, à procura da carruagem certa naquele comboio gigante que se preparava para transportar milhares de pessoas. Depois de procurar pelas carruagens de 1ª classe que tinham os compartimentos cama, lá as encontrei e arrumei-me.

Como só havia um vagão restaurante, o meu jantar iria ser servido na terceira ronda. Hora prevista 2:00 da manhã. Por volta das 24:00 o comboio iniciou a viagem rumo a Mombaça. Depois de umas cervejas na gare enquanto esperávamos o comboio e o ram-ram do comboio agora em movimento caí num sono profundo. Acordei à 1:30 com o sino que anunciava a segunda leva para o jantar. Adormeci novamente. Acordei às 4:00, obviamente sem jantar. O tempo para o jantar já tinha acabado, explicaram-me amavelmente. Protestei com os atrasos que se convenceram a servir o jantar aquela hora tardia.

Mombaça, Quénia, Dezembro de 2011


Fiquei a olhar atentamente para o comboio, dos anos 50, cheio de pormenores luxuosos para a época, mas que agora já não funcionavam. Ventoinhas nos tetos, lavatório com água no compartimento, luzes de leitura nas camas, tomadas para maquinas de barbear, pormenores que na altura faziam o conforto dos passageiros.

Às 8:00 o calor começa a fazer-se sentir na carruagem e às 11:00 começa a parecer insuportável. Às 15:00 começa a entrar um brisa marítima que refresca um pouco o ar húmido e pesado do comboio. Mombaça está à vista no horizonte. Pelo meio ficaram inúmeras aldeias de gente que só tinha a passagem do comboio para quebrar a rotina diária. No final, uma viagem que durou 20 horas, desconfortável, mas inesquecível.    

Quinta-feira, Março 08, 2012

Social 32

Foto de Adriano Miranda



Partilho aqui mais uma reflaxão do Mia Couto, muito cáustica sobre os tempos que correm, sobre o não conflito de gerações. Uma reflexão bem caracterísitaca do Mia Couto.


'Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.

Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e tambémestão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.

Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.Foi então que os pais ficaram à rasca. Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.

Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com queo país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.

Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade quequeimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.

Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável. Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração? Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!

Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todosnós).

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles. A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. 

Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.

Haverá mais triste prova do nosso falhanço?'


Acho que o Mia Couto estava bem zangado quando escreveu este texto.
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