
André era um homem tipicamente cosmopolita. Não passava sem a dose diária da adrenalina urbana da sua cidade: o cheiro a tinta de jornal fresco, o cheiro do gasóleo acumulado no interior do seu carro das intermináveis filas de transito que teimosamente insistia em andar, o cheiro das iscas requentadas, o cheiro indistinto de óleo alimentar queimado, o cheiro a tabaco pestilento depois de uma noite com Dj's. Dava-se conta que também não podia passar sem todo o ruido branco que o rodeava: os telemóveis a tocar insistentemente, as buzinas dos carros, os rádios, a televisão, os gritos, as pessoas, muitas pessoas e música.
Um dia disseram-lhe que tinha que parar, o seu coração não aguentaria mais aqueles tratos diários misturados com álcool e outros químicos que o enganavam. Parou. Foi viajar para paragens distantes, onde o tempo corre devagar e onde o prazer se encontra nos olhares, nos aromas e nos silêncios.
Consta que não regressou. Não se sabe bem se ficou por lá pelos campos budistas se pelas casas de ópio e do prazer. Pouco importa, na cidade ninguém deu pela sua falta.










