terça-feira, março 08, 2011

Social 28



As últimas semanas mostraram ao mundo que o poder não é perpétuo e que pode cair por vontade popular. Estas revoluções de rua, convocadas na net, mostram que o mundo está em transformação nas formas de mobilização e de organização da contestação.
Não duvido que no futuro surgam teses de doutoramento sobre o impacto das redes sociais na definição da política de uma nação ou outros títulos afins.
Todavia, será com toda a certeza interessante confrontar a eficácia da organização espontânea e popular contra os regimes autoritários ou ditatoriais versus a eficácia dos mesmas em regimes democráticos, onde o "inimigo" é aparentemente invisível e difuso.
De qualquer forma, e independentemente do rosto do "inimigo" ao bem estar dos povos, estas últimas semanas evidenciam que as revoluções de rua são, não só possiveis, como eficazes.
Outra questão, mais séria, que se coloca imediatamente a seguir a uma revolução é saber quem se perfila no poder vindouro: O poder sombra, sempre poderoso, que nunca deu a cara e que aproveita e manipula as jogadas genuinas dos peões para dar xeque, ou o poder espontâneo e genuíno dos povos?
A História mostrou-nos que o caminho faz-se caminhando, a matemática e a física também nos mostraram que todos os caminhos vão, ao fim de algum tempo, dar ao mesmo lugar. Seja como for, o futuro constrói-se, o futuro passa por todos nós, aqui e agora.

domingo, fevereiro 20, 2011

Social 27

Foto de Alberto Monteiro



Dia 12 de Março há uma manifestação dos “precários” em algumas das principais cidades portuguesas. Esta manifestação, concentração, encontro, seja lá o que for, foi iniciada no facebook. Este tema levanta-me dois comentários: O primeiro sobre o impacto do facebook na vida quotidiana das pessoas (com o exemplo do Egipto), o segundo, mais importante, sobre a capacidade de mobilização das pessoas para reivindicarem direitos legítimos e consagrados na carta dos direitos universais, como o direito ao trabalho e o direito à família.

Comecemos pelo primeiro, o impacto do facebook na vida quotidiana das pessoas:
À primeira análise, o facebook seria mais uma rede social, aparentemente inócua onde cada um vai dizendo e partilhando com mais ou menos seriedade o que vai acontecendo na sua vida: os seus gostos musicais, noticiosos, fotografias de ocasião, enfim, uma panóplia de ferramentas onde se permite partilhar o que se quiser, desde o mais fútil e banal, ao mais sério e fundamental. Neste momento não tenho dúvidas que o facebook é uma ferramenta extremamente poderosa e cheia de potencialidades. Mas, o facto de admitir que esta rede social tem enormes potencialidades não significa que ela seja efectivamente poderosa, sobretudo num país como Portugal.
Esta afirmação provocatória remete-me para a segunda questão enunciada acima, sobre a capacidade de mobilização das pessoas, via facebook, ou outra via qualquer. Não considero o povo português um povo verdadeiramente reivindicativo. Mais, considero o povo português um povo passivo, que acha que o futuro está condenado ao que for sem que para isso mexa uma palha que não seja a língua para dizer mal. É um povo que provavelmente tem razões históricas para ser assim, passivo, porque sempre delegou aos outros a decisão do seu futuro e cedo percebeu que as organizações adulteram o seu pensamento genuinamente libertador. Vejam-se os resultados das últimas eleições presidenciais, a crescente desmotivação pelos movimentos políticos organizados, que, aos seus olhos se organizam em seu próprio benefício. Vejam-se as grandes convulsões sociais que existiram e que foram sempre “a posteriori” ratificadas pelo povo mas que nunca foi o povo que as verdadeiramente despoletou.
Porque vivo agora num país onde os direitos humanos são uma miragem, porque sou cada vez mais sensível ao drama da precariedade e do mundo que a humanidade está a construir nesta premissa, vejamos o que irá acontecer no dia 12 de Março, se uma manifestação de intenções imberbe ou uma tomada de posição mais séria e um aviso à navegação. Os mais esclarecidos poderão pensar que não há nada a fazer, Berlusconi mantém-se legitimamente no poder há anos. Um símbolo da decadência e liberalização selvática de todos os valores da sociedade ocidental.
Neste momento não tenho dúvidas, o poder que cada um de nós tem, por mais ínfimo que pensemos que seja, é infinitamente maior do que possamos imaginar, se aplicado em larga escala. Só temos que o aplicar mesmo em larga escala e não ficarmos confinados à nossa pequena realidade individual. Os problemas são comuns, transnacionais. Mobilizemo-nos e façamos como alguém há muito tempo declarou: “Ajo como se o meu acto fizesse a diferença”.
Será concerteza um parto com dor, mas não tenhamos medo da dor! Como biologicamente se diz e é consensual, a dor é a defesa do nosso corpo a fenómenos estranhos. Façamos da dor o caminho para uma sociedade menos egoísta e mais solidária, via facebook ou por outra via qualquer. O que é inconsequente é o silêncio e frustração armazenados em cada um de nós.
Caminhemos pedra sobre pedra, passo a passo, rumo à mudança.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Retratos 32

Fotografia de Graça Loureiro

Foto de Graça Loureiro

Hoje faço um brinde a uma pessoa que  passou fugazmente pela minha vida, mas que a marcou profundamente. Mary, uma italo-indiana atrevida. Um beijo para ti, cupido.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Eduardo Gageiro - Retrato com história

António de Oliveira Salazar - 1962
O espólio fotográfico do Eduardo Gageiro é notável, e há fotografias que ele fez que me deixam mudo perante a riqueza de conteúdo que contêm. Esta é uma foto dessas, reveladora de uma perspicácia invulgar. Dizia o Nozolino, outro grande fotógrafo cujo trabalho admiro, que o olhar é como um lápis, com a idade vai-se afiando. É certo que em 1962 Gageiro era ainda um jovem fotojornalista, mas o seu olhar sempre foi especial e foi essa capacidade que o tornou num excelente fotojornalista e captador de imagens.

Nesta foto, vê-se um homem  orgulhosamente só,  contemplando o oceano, provavelmente pensando no seu delirante sonho colonialista e que conduziu Portugal a uma guerra absurda e, na época, sem sentido e fortemente condenada do ponto de vista internacional. Um homem só, um poder só, com uma máquina musculada por detrás que reprimia quem se lhe opusesse.

Que personagem e que cenário escolheria Gageiro nos dias de hoje para retratar o poder em Portugal? Duvido que fosse Cavaco Silva na sua casa do Algarve. Duvido também que fosse José Sócrates a sair da Universidade com o seu diploma, ou a sair de um palácio no Qatar com um cheque na mão. Provavelmente escolheria não um, mas um monte de personagens, os das grandes empresas de consultoria, sem rosto, que legislam a seu belo prazer, que misturam sabiamente a política e o capital, porque afinal, o verdadeiro poder hoje não tem rosto.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Eduardo Gageiro - Retratos com história

Eduardo Gageiro é um nome incontornável na fotografia portuguesa. Partilho convosco alguns retratos tirados nas últimas quatro décadas do século passado a personalidades importantes da arte, cultura e política portuguesa.

Raúl Solnado - actor - 1966
 Maria João Pires - pianista - 2000
José Régio - escritor - 1968
Jorge de Sena - escritor - 1970

General Spínola - 1974

José Cardos Pires - escritor - 1984
 
Carlos Paredes - músico - 1988
Amália Rodrigues - fadista - 1971
Sophia de Mello Breyner - escritora - 1964
Eunice Munoz - actriz - 1966
Jóias da fotografia portuguesa.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Retratos 32

Foto de Dina Fraga


Era uma vez um país rico, tão rico que acabou de aprovar uma legislação sobre o regime de aposentação da segurança social que faz corar os países ricos ocidentais. Vejam-se sumariamente quatro das condições de reforma aprovadas recentemente:
1 - Tem direito à reforma por incapacidade para o trabalho qualquer cidadão que tenha descontado pelo menos15 anos para a segurança social.
2 - Tem direito à reforma qualquer cidadão que tenha trabalhado 35 anos de serviço efectivo.
3 - O valor da reforma corresponde a 100% do último salário.
4 - Em caso de morte do reformado 75% do valor da reforma é distribuida pelos herdeiros (mulher e filhos maiores) em partes iguais [curiosamente este artigo não tem limite temporal]

Depois de ter visto estas o diploma legal pensei, caramba, este país nada em dinheiro!
No final concluí que afinal, o país é dos mais pobres do mundo, e que metade do orçamento do estado é financiado por ajuda externa. Como justificarão os países doadores aos seus contribuintes que financiam neste país condições que há muito revogaram e alteraram?

quarta-feira, dezembro 01, 2010






Sim, eu sei que este blog foi criado para divulgar fotografia portuguesa e, claro, a preto e branco. Mas o mundo anda com uma lógica tão absurda que importa quebrar as regras e as tradições. Afinal, o que temos a perder em romper com o que nos querem estabelecer?

quarta-feira, novembro 24, 2010

Social 26

Fotografia de Paulo Nozolino

Foto de Paulo Nozolino


Um pouco por toda a Europa existe uma vaga de protesto da população que está cansada e desesperada com a situação de crise generalizada que se vive no mundo e nos seus países em particular. Portugal não foge à regra e hoje foi dia de protesto, de contestação, de greve geral.
Há quem diga que isto é orquestração dos malditos sindicatos, há quem diga que é seguidismo dos que não querem trabalhar, há quem diga e desdiga uma série infindável e sempre questionável de argumentos.
O que parece inquestionável é o descalabro da economia capitalista. E há muitos reputados intelectuais sérios e honestos por esse mundo fora, de reputadíssimas universidades, que o afirmam há muito tempo.
Como tributo a esta insatisfação geral que se vive, deixo aqui mais uma crónica sagaz e corrosiva, escrita há menos de um mês por Mia Couto, que a escreveu a pensar especialmente em Moçambique, mas que não se esgota nem em Moçambique, nem em Portugal. Sobre os homens-sombra.

"Existe o “Yes man”. Todos sabem quem é e o mal que causa. Mas existe o May be man. E poucos sabem quem é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no final, reconhecerão como familiar.
O May be man vive do “talvez”. Em português, dever-se-ia chamar de “talvezeiro”. Devia tomar decisões. Não toma. Sim plesmente, toma indecisões. A decisão é um risco. E obriga a agir. Um “talvez” não tem implicação nenhuma, é um híbrido entre o nada e o vazio.
A diferença entre o Yes man e o May be man não está apenas no “yes”. É que o “may be” é, ao mesmo tempo, um “may be not”. Enquanto o Yes man aposta na bajulação de um chefe, o May be man não aposta em nada nem em ninguém. Enquanto o primeiro suja a língua numa bota, o outro engraxa tudo que seja bota superior.
Sem chegar a ser chave para nada, o May be man ocupa lugares chave no Estado. Foi-lhe dito para ser do partido. Ele aceitou por conveniên cia. Mas o May be man não é exactamente do partido no Poder. O seu partido é o Poder. Assim, ele veste e despe cores políticas conforme as marés. Porque o que ele é não vem da alma. Vem da aparência. A mesma mão que hoje levanta uma bandeira, levantará outra amanhã. E venderá as duas bandeiras, depois de amanhã. Afinal, a sua ideolo gia tem um só nome: o negócio. Como não tem muito para negociar, como já se vendeu terra e ar, ele vende-se a si mesmo. E vende-se em parcelas. Cada parcela chama-se “comissão”. Há quem lhe chame de “luvas”. Os mais pequenos chamam-lhe de “gasosa”. Vivemos uma na ção muito gaseificada.
Governar não é, como muitos pensam, tomar conta dos interesses de uma nação. Governar é, para o May be Man, uma oportunidade de negócios. De “business”, como convém hoje, dizer. Curiosamente, o “talvezeiro” é um veemente crítico da corrupção. Mas apenas, quando beneficia outros. A que lhe cai no colo é legítima, patriótica e enqua dra-se no combate contra a pobreza.
Mas a corrupção, em Moçambique, tem uma dificuldade: o corrup tor não sabe exactamente a quem subornar. Devia haver um manual, com organograma orientador. Ou como se diz em workshopês: os guidelines. Para evitar que o suborno seja improdutivo. Afinal, o May be man é mais cauteloso que o andar do camaleão: aguarda pela opi nião do chefe, mais ainda pela opinião do chefe do chefe. Sem luz verde vinda dos céus, não há luz nem verde para ninguém.
O May be man entendeu mal a máxima cristã de “amar o próximo”. Porque ele ama o seguinte. Isto é, ama o governo e o governante que vêm a seguir. Na senda de comércio de oportunidades, ele já vendeu a mesma oportunidade ao sul-africano. Depois, vendeu-a ao portu guês, ao indiano. E está agora a vender ao chinês, que ele imagina ser o “próximo”. É por isso que, para a lógica do “talvezeiro” é trágico que surjam decisões. Porque elas matam o terreno do eterno adiamento onde prospera o nosso indecidido personagem.
O May be man descobriu uma área mais rentável que a especulação financeira: a área do não deixar fazer. Ou numa parábola mais recen te: o não deixar. Há investimento à vista? Ele complica até deixar de haver. Há projecto no fundo do túnel? Ele escurece o final do túnel. Um pedido de uso de terra, ele argumenta que se perdeu a papelada. Numa palavra, o May be man actua como polícia de trânsito corrup to: em nome da lei, assalta o cidadão.
Eis a sua filosofia: a melhor maneira de fazer política é estar fora da política. Melhor ainda: é ser político sem política nenhuma. Nessa fluidez se afirma a sua competência: ele e sai dos princípios, esquece o que disse ontem, rasga o juramento do passado. E a lei e o plano servem, quando confirmam os seus interesses. E os do chefe. E, à cau tela, os do chefe do chefe.
O May be man aprendeu a prudência de não dizer nada, não pensar nada e, sobretudo, não contrariar os poderosos. Agradar ao dirigen te: esse é o principal currículo. Afinal, o May be man não tem ideia sobre nada: ele pensa com a cabeça do chefe, fala por via do discurso do chefe. E assim o nosso amigo se acha apto para tudo. Podem no meá-lo para qualquer área: agricultura, pescas, exército, saúde. Ele está à vontade em tudo, com esse conforto que apenas a ignorância absoluta pode conferir.
Apresentei, sem necessidade o May be man. Porque todos já sabíamos quem era. O nosso Estado está cheio deles, do topo à base. Podíamos falar de uma elevada densidade humana. Na realidade, porém, essa densidade não existe. Porque dentro do May be man não há ninguém. O que significa que estamos pagando salários a fantasmas. Uma for tuna bem real paga mensalmente a fantasmas. Nenhum país, mesmo rico, deitaria assim tanto dinheiro para o vazio.
O May be Man é utilíssimo no país do talvez e na economia do faz-de- conta. Para um país a sério não serve."

sábado, novembro 13, 2010

Ambiências 55

 Foto de Francisco Máximo


Já tive a sorte de poder visitar alguns lugares da Terra. Confesso que me falta quase tudo para ver, mas das experiências de viagens que colectei ao longo da vida, houve uma que me surpreendeu muito mais do que esperava. A Namíbia.

A Namíbia é um país que do ponto de vista paisagístico é único. Tem paisagens surreais onde o deserto e os terrenos áridos se conjugam com cores e neblina dando formas e ambientes que não parecem deste mundo. Mas para além da fantástica beleza do país, há a destacar também a organização e as infra-estruturas.

É um país imenso, com uma rede de estradas asfaltadas e de terra batida que faz inveja a todos os países africanos. Rede de distribuição de energia eléctrica por todo o país. As cidades limpas, sem confusão de tráfico, com variadíssimos pontos de recolha de lixo diferenciado para reciclagem.

A polícia e todas as autoridades tratam as pessoas com amabilidade, pedagogia e respeito. Nas lojas, a organização é o lema, o bom tratamento ao cliente é o mote.
Nos lugares turísticos, reservas naturais, hotéis e lodges o requinte impera. O serviço é de altíssima qualidade. Nas ruas, respira-se tranquilidade e segurança.


Foto de Francisco Máximo


Do ponto de vista da organização política, as várias etnias que compõem o país são vistas e reconhecidas como tribos com direito ao reconhecimento da língua própria nas escolas e o respeito pela cultura, religião e tradições. O mais curioso é que as ex-etnias colonizadoras, a alemã e a sul-africana bóer, são reconhecidas politicamente como tribos e tratadas em pé de igualdade às demais tribos autóctones.
É um país africano que não parece africano, dados os elevados padrões de organização e qualidade que apresenta.

Foto de Francisco Máximo

Em contraste, na viagem de regresso a Moçambique, depois de várias horas de atraso no aeroporto à espera do avião das Linhas Aéreas Moçambicanas, sem qualquer explicação ou satisfação da companhia, chegamos ao aeroporto de Maputo, fora de horas, cansados de tantas tempo de espera. Chegámos ao balcão da migração para apresentação dos passaportes e, não há ninguém. Com muita calma lá começam a chegar funcionários. Dispõem-se em dois balcões, sem haver separação para residentes, turistas ou diplomatas. Depois de mais um tempo infinito de espera para ter o carimbo de entrada no país, um funcionário pede para revistar as malas.

Digo-lhe, de uma forma irritada, que depois de mais de meio-dia de atraso, e aquela hora tardia, aquele procedimento poderia ser evitado. Começo a abrir a mala visivelmente mal-disposto. O funcionário olha para mim e diz-me: “dá lá refresco e podes passar”.

A primeira autoridade pública deste país revela-se imediatamente: isto é um país de extorsão e abuso. Claro que não paguei nada e fui-me embora, furioso.

Moçambique, um país rico do ponto de vista dos recursos naturais, com esta cultura do estou a pedir refresco, leia-se corrupção e extorsão, não vai longe e nunca poderá competir com países organizados como a Namíbia e nunca estará nos roteiros turísticos do mundo. A corrupção e a ineficiência dos serviços para instituir a corrupção são uns dos vários cancros deste país.

quinta-feira, novembro 04, 2010

20-10-2010


Depois da declaração, da festa, do brinde, das canções e da brincadeira, partiu-se à descoberta de uma nova fase da vida com um novo mundo como cenário. A Namíbia.

quinta-feira, setembro 30, 2010

Social 25




As outras nações de Moçambique? (texto de Mia Couto)

1 - Os pneus ardendo nas estradas de Maputo e Matola não obrigaram apenas a parar o trânsito daquelas cidades. Paradoxalmente, esse bloqueio à normalidade abriu acesso a outras estradas que pareciam bloqueadas em todo o país. Os motins obrigaram a repensarmo-nos como país, como entidade que não pode ser dirigida por um pensamento único. As manifestações tornaram visível um outro Moçambique que parecia esquecido e longe dessa “pátria amada” tornada em chavão oficial. No auge da crise, a Frelimo retomou o seu velho método de contacto directo com as bases. Brigadas “saíram” para os bairros e regressaram alarmadas. O sentimento que encontraram nas bases estava distante dos relatórios oficiais que, à força de serem repetidos, pareciam ser a verdade única e total.


Afinal, a zanga não era apenas a dos que saíram à rua. Os distúrbios eram a expressão desordenada de uma insatisfação bem mais generalizada e profunda. Não era obra dos “inimigos”. Se calhar, era obra dos que parecem militar nas próprias fileiras. Dos que assumem que fazer política é levar e trazer relatórios falseados para agradar aos chefes. A insatisfação dos mais pobres não tinha apenas a ver com preços de produtos. Essa revolta não era, afinal, apenas dos que vivem na pobreza absoluta. Outras pobrezas fizeram fumo no primeiro de Setembro.


A dimensão desse sentimento popular foi vital para ditar o volte-face do Governo. Medidas que 48 horas antes haviam sido tidas como “irreversíveis” pelo porta-voz do Conselho de Ministros foram, afinal, revogadas. De forma pouco habitual, o poder vinha dizer que uma parte do problema estava também dentro da própria governação. Esta aceitação da necessidade de uma nova ética na relação com os outros é talvez mais importante que as anunciadas medidas económicas. Ao assumir publicamente que devem dar o exemplo no apertar do cinto, os dirigentes da Frelimo tornam-se mais próximos dessa vanguarda moral que, antes nos ensinou que o “responsável político é o primeiro no sacrifício e o último nos privilégios”.


Os eventos de Setembro podem indiciar que a Frelimo pretende reaproximar da própria Frelimo. Chama-se o que se quiser ao volte face que o Conselho de Ministros. Eu acho que essa mudança foi corajosa, vital e indiciadora de outras mudanças. Essa mudança pode salvar todas as nações da nação moçambicana. E pode salvar a própria Frelimo como força condutora dos destinos de uma pátria que é a única que, nós, moçambicanos temos.

2- Este acordar para uma realidade não tocou apenas os dirigentes de partidos. No dia dos tumultos, muitos cidadãos de Maputo foram sacudidos pela surpresa. Morando em bairros ricos, esses cidadãos há muito que confundiam a nação com a reduzida geografia da cidade por onde circulam. O lugar dos pobres era, para eles, um cenário longínquo, uma fachada apenas visível da janela das viaturas com que, apressadamente, atravessam as chamadas “periferias”. Aos poucos, a nação destes compatriotas se resumiu ao circuito das grandes avenidas e dos quarteirões privilegiados do cimento. É fácil amar uma pátria assim: mais ou menos limpa, mais ou menos servida, mais ou menos cosmopolita. Para os cidadãos “deste” Moçambique, os motins surgiram como uma espécie de invasão. Os desordeiros estavam avançando sobre a sua “nação”. Xilunguíne estava sendo ameaçada pelos bárbaros suburbanos.


De repente, os habitantes da nação cimentada acordaram para a existência de uma outra nação maior. De súbito, lembraram-se que havia uma outra cidade fora da cidade, que havia uma pobreza que não morava apenas nos “distritos”.

O fumo dos pneus teve o efeito inverso do que se poderia prever: clareou céus e rasgou horizontes. Os pobres deixaram de ser apenas assunto dos workshops. Os pobres saltaram dos seminários em luxuosos hotéis para a realidade do dia-a-dia. Os pobres podem fazer parar o país dos outros. Mesmo que para isso acabem ficando mais pobres. Para quem tem pouco “amanhã” esse esbanjar de futuro valia a pena.
Neste sentido, no dia primeiro de Setembro Moçambique deu uma cambalhota. Dito de outro modo, a percepção que um certo Moçambique tem de si mesmo foi colocada de pernas para o ar. A periferia virou o centro. A pobreza falou por si mesma, com seus recursos pobres, com a sua esperança empobrecida. As cicatrizes dos pneus em chamas não sobreviverá nas estradas da capital.
Espero que as lições desse transbordar sobrevivam dentro de nós como um alerta que algo precisa mudar nas duas nações.


segunda-feira, setembro 27, 2010

Pele 31



Há luz sem lume aceso
Mas sem amar o calor
À flor de um fogo preso
À luz do meu claro amor



Há madressilvas aos pés
E águas lavam o rosto
Dedos que tens em respeito
Oh, meu amante deposto


Não foram poemas nem rosas
Que colheste no meu colo
Foram cardos, foram prosas
Arrancadas do meu solo


Porque tu ainda me queres
O amor que ainda fazemos
Dá-me um sinal se puderes
Sejamos amantes supremos


Será sempre a subir
Ao cimo de ti
Só para te sentir


Será no alto de mim
Que um corpo só
Exalta o seu fim...

Lembro-me perfeitamente da edição desde disco no início dos anos oitenta, com música do Ricardo Camacho dos Sétima Legião, letra de Miguel Esteves Cardoso e a interpretação da, na altura, jovem Manuela Moura Guedes. Pode ser escutado aqui
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