quinta-feira, setembro 30, 2010

Social 25




As outras nações de Moçambique? (texto de Mia Couto)

1 - Os pneus ardendo nas estradas de Maputo e Matola não obrigaram apenas a parar o trânsito daquelas cidades. Paradoxalmente, esse bloqueio à normalidade abriu acesso a outras estradas que pareciam bloqueadas em todo o país. Os motins obrigaram a repensarmo-nos como país, como entidade que não pode ser dirigida por um pensamento único. As manifestações tornaram visível um outro Moçambique que parecia esquecido e longe dessa “pátria amada” tornada em chavão oficial. No auge da crise, a Frelimo retomou o seu velho método de contacto directo com as bases. Brigadas “saíram” para os bairros e regressaram alarmadas. O sentimento que encontraram nas bases estava distante dos relatórios oficiais que, à força de serem repetidos, pareciam ser a verdade única e total.


Afinal, a zanga não era apenas a dos que saíram à rua. Os distúrbios eram a expressão desordenada de uma insatisfação bem mais generalizada e profunda. Não era obra dos “inimigos”. Se calhar, era obra dos que parecem militar nas próprias fileiras. Dos que assumem que fazer política é levar e trazer relatórios falseados para agradar aos chefes. A insatisfação dos mais pobres não tinha apenas a ver com preços de produtos. Essa revolta não era, afinal, apenas dos que vivem na pobreza absoluta. Outras pobrezas fizeram fumo no primeiro de Setembro.


A dimensão desse sentimento popular foi vital para ditar o volte-face do Governo. Medidas que 48 horas antes haviam sido tidas como “irreversíveis” pelo porta-voz do Conselho de Ministros foram, afinal, revogadas. De forma pouco habitual, o poder vinha dizer que uma parte do problema estava também dentro da própria governação. Esta aceitação da necessidade de uma nova ética na relação com os outros é talvez mais importante que as anunciadas medidas económicas. Ao assumir publicamente que devem dar o exemplo no apertar do cinto, os dirigentes da Frelimo tornam-se mais próximos dessa vanguarda moral que, antes nos ensinou que o “responsável político é o primeiro no sacrifício e o último nos privilégios”.


Os eventos de Setembro podem indiciar que a Frelimo pretende reaproximar da própria Frelimo. Chama-se o que se quiser ao volte face que o Conselho de Ministros. Eu acho que essa mudança foi corajosa, vital e indiciadora de outras mudanças. Essa mudança pode salvar todas as nações da nação moçambicana. E pode salvar a própria Frelimo como força condutora dos destinos de uma pátria que é a única que, nós, moçambicanos temos.

2- Este acordar para uma realidade não tocou apenas os dirigentes de partidos. No dia dos tumultos, muitos cidadãos de Maputo foram sacudidos pela surpresa. Morando em bairros ricos, esses cidadãos há muito que confundiam a nação com a reduzida geografia da cidade por onde circulam. O lugar dos pobres era, para eles, um cenário longínquo, uma fachada apenas visível da janela das viaturas com que, apressadamente, atravessam as chamadas “periferias”. Aos poucos, a nação destes compatriotas se resumiu ao circuito das grandes avenidas e dos quarteirões privilegiados do cimento. É fácil amar uma pátria assim: mais ou menos limpa, mais ou menos servida, mais ou menos cosmopolita. Para os cidadãos “deste” Moçambique, os motins surgiram como uma espécie de invasão. Os desordeiros estavam avançando sobre a sua “nação”. Xilunguíne estava sendo ameaçada pelos bárbaros suburbanos.


De repente, os habitantes da nação cimentada acordaram para a existência de uma outra nação maior. De súbito, lembraram-se que havia uma outra cidade fora da cidade, que havia uma pobreza que não morava apenas nos “distritos”.

O fumo dos pneus teve o efeito inverso do que se poderia prever: clareou céus e rasgou horizontes. Os pobres deixaram de ser apenas assunto dos workshops. Os pobres saltaram dos seminários em luxuosos hotéis para a realidade do dia-a-dia. Os pobres podem fazer parar o país dos outros. Mesmo que para isso acabem ficando mais pobres. Para quem tem pouco “amanhã” esse esbanjar de futuro valia a pena.
Neste sentido, no dia primeiro de Setembro Moçambique deu uma cambalhota. Dito de outro modo, a percepção que um certo Moçambique tem de si mesmo foi colocada de pernas para o ar. A periferia virou o centro. A pobreza falou por si mesma, com seus recursos pobres, com a sua esperança empobrecida. As cicatrizes dos pneus em chamas não sobreviverá nas estradas da capital.
Espero que as lições desse transbordar sobrevivam dentro de nós como um alerta que algo precisa mudar nas duas nações.


segunda-feira, setembro 27, 2010

Pele 31



Há luz sem lume aceso
Mas sem amar o calor
À flor de um fogo preso
À luz do meu claro amor



Há madressilvas aos pés
E águas lavam o rosto
Dedos que tens em respeito
Oh, meu amante deposto


Não foram poemas nem rosas
Que colheste no meu colo
Foram cardos, foram prosas
Arrancadas do meu solo


Porque tu ainda me queres
O amor que ainda fazemos
Dá-me um sinal se puderes
Sejamos amantes supremos


Será sempre a subir
Ao cimo de ti
Só para te sentir


Será no alto de mim
Que um corpo só
Exalta o seu fim...

Lembro-me perfeitamente da edição desde disco no início dos anos oitenta, com música do Ricardo Camacho dos Sétima Legião, letra de Miguel Esteves Cardoso e a interpretação da, na altura, jovem Manuela Moura Guedes. Pode ser escutado aqui

quinta-feira, setembro 23, 2010

Sugestão 12




Um pouco de cor no Blografias é uma excepção mas não fica mal, sobretudo se vem de um sítio como este, recheado de gente irrequieta e irreverente onde a fotografia reflete o nome do espaço: alternativa.

terça-feira, setembro 21, 2010

Intimidades 21

Foto de Nanã Sousa Dias


Falta exactamente um mês para concretizar um pequeno sonho: pisar as dunas do deserto da Namíbia. Arranjei a companhia certa e lá, celebraremos o passado e o futuro.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Social 24



A recente crise que Maputo viveu teve origem no enorme descontentamento da população. Os elevados níveis de pobreza aliados ao disparo dos preços de bens essenciais despoletaram a revolta. A revolta foi apelidada pelos responsáveis políticos como vandalismo e as manifestações consideradas ilegais.

Importa esclarecer que as manifestações seriam sempre ilegais porque não foram convocadas por nenhuma associação legalmente constituída, mas sim por um movimento espontâneo e popular que surgiu em mensagens sms.

Importa ainda esclarecer que cerca de 90% da população é formalmente desempregada e vive de biscates e que cerca de 45% da população é menor.

Importa também esclarecer que a violência vivida naqueles dias resultou em grande parte da forte e brutal repressão policial que cumpria ordens. De facto, dias depois houve testemunhos de polícias que confessaram que eles também queriam estar no outro lado da barricada porque eles também passam mal, apenas cumpriam ordens superiores.

É necessário ainda referir que o salário mínimo ao câmbio actual é de cerca de 50 euros. Um polícia em início de carreira tem este salário e um polícia com 10 anos de serviço ganha menos de 100 euros.

Os factores que contribuiram para esta revolta foi o aumento desmesurado do custo de vida. No último ano, o metical desvalorizou face ao euro, ao dólar e ao rand ( moeda fundamental em Moçambique já que a maioria das importações vêm da África do Sul e Moçambique importa quase tudos os alimentos ) cerca de 40%. Este facto aliado ao aumento dos preços a nível internacional tornou a situação incomportável para a maioria da população.

O governo, depois de dias de silêncio e repressão ( os serviços de mensagens dos telemóveis foram bloqueados durante 3 dias pelas operadoras ) veio depois anunciar que subsidiaria o preço dos combustíveis, da energia, água, arroz e do pão. Estas medidas acalmaram a população mas, imagino que são a prazo insustentáveis para um país tão pobre como Moçambique cujo Orçamento de Estado é subsidiado por doadores internacionais em cerca de 50%. Assim, prevejo que o futuro será instável e novos protestos se farão ouvir e sentir. Quando a miséria é extrema e a fome aperta, a linha de separação entre o protesto e a violência é demasiado ténue. É a revolta dos que cairam em desgraça.

segunda-feira, setembro 13, 2010

Social 23

Sofala, Moçambique, Abril de 2008

Esta fotografia, tirada bem no interior de Moçambique, resultou de um trabalho de cobertura de uma muito célebre multimilionária americana, filha do talvez mais famoso magnata americano, que ali se deslocou para observar o trabalho comunitário que se estava a realizar e, eventualmente, contribuir com uns trocos no projecto.
Os contrastes entre a civilização visitante, que descia dos céus com um barulho ensurdecedor, e a civilização visitada, afundada no chão daquela aldeia, eram de tal forma notórios que eram, no mínimo, chocantes. Não admira que este povo não consiga calar a injustiça que sente.

domingo, maio 23, 2010

Retratos 31

Foto de Francisco Máximo

We will act as if what we do will make a difference. There is nothing you and I won't do.

quarta-feira, maio 12, 2010

Social 22

Foto de Catarina Cruz


Partilho convosco uma notícia acabada de sair sobre um estudo apresentado ontem, no Porto, no 10º Congresso da Federação Europeia de Sexologia:

"Metade das mulheres portuguesas masturbou-se regularmente na adolescência e cerca de um terço continua a fazê-lo para lidar com o stresse. Entre as que têm uma relação estável, 55% revelam-se altamente satisfeitas com a sua vida sexual."

Estas conclusões resultam de duas investigações que visavam aprofundar o conhecimento sobre a sexualidade das portuguesas. O estudo conduzido por Sandra Vilarinho, que envolveu 497 mulheres em relações estáveis, concluiu que mais de metade se sente muito satisfeita no que diz respeito ao prazer sexual, sendo o bem-estar na relação conjugal determinante para 25% das inquiridas. Seis em cada dez tiveram desejo ou interesse sexual "quase sempre" ao longo do mês anterior ao inquérito.


O que mais me satisfez, foi que a autora concluiu que as mulheres sexualmente mais satisfeitas revelam maior autoconfiança, alegria e serenidade.
Sugiro que seja um estudo a apresentar ao Papa, aproveitando a sua passagem pelo Porto, para ver se acaba a recriminação católica à sexualidade. Err... esqueci-me que a história mostra que a igreja e estudos científicos, são como dois líquidos imiscíveis. No passado, até davam chama, na fogueira.

domingo, maio 09, 2010

Social 21


Partilho aqui um texto do Mia Couto, a propósito do desencanto com o país que o fez nascer:


Havia um país em que tudo funcionava na base dos dez por cento.
Era o médico: - Mandas-me esse doente e eu pago-te 10%.

Era a criança de rua para um candidato a criança de rua: - Deixo-te guardar carros na minha área e dás-me 10 por cento.

Era o chefe: - Deixo a vossa empresa ganhar o concurso e vocês retribuem com 10 por cento.

Era o polícia: - Estou a telefonar para lembrar aquela multa que perdoei... recorde-se do combinado.

Era o director: - Coloquei-te no projecto como técnico... já sabes, não é?

Era o outro chefe em sussurro para o empresário estrangeiro: - Podem investir no nosso país mas... há comissões, é normal...

Tudo parecia correr bem, no país dos dez por cento. Na aparência, pelo menos... As pessoas trabalhavam a dez por cento, sonhavam nessa percentagem, viviam nessa escassa perspectiva. Tudo a dez por cento.

Mesmo a esperança a ser investida no futuro ocupava apenas uma fracção do coração.

Certo dia, porém, alguém pensou tomar uma iniciativa a 100 por cento. Meu dito, meu feito. O homem arregaçou as mangas e trabalhou.

E logo os amigos, familiares e colegas desataram a rir. Que o esforço seria em vão. Porque, nesse país, o construir era entendido como "comer". E ninguém pode "comer" sozinho. Viria o fiscal e pediria 10 por cento. Viria o camarário e pediria 10% para as licenças. Viria o ministerial e exigiria 10 por cento. Ou mais.

No final, ele acabaria por ficar com menos de 10 por cento das ideias, e do esforço aplicado resultaria quase nada. Que no país dos dez por cento o melhor é não fazer. O melhor é não construir, nem trabalhar. O que é bom e saudável é parasitar os que querem fazer. Sobretudo, os que querem fazer a cem por cento.

E assim, embora aparentando toda a normalidade, o país a dez por cento padecia de uma doença fatal. O problema é que um país a dez por cento só pode ser dez por cento país!


O terceiro mundo está muito mais perto de alguns europeus do que eles próprios imaginam.

domingo, maio 02, 2010

Social 20

Foto de Nuno Sousa Foto de Nuno Sousa

O papa prepara-se para visitar Portugal. A acompanhá-lo, toda a negritude que há muito se suspeitava: o "amor" pelas crianças. A cobardia tem que ter limites e não há perdão possível para estes crimes perpretados por gente execrável que se esconde atrás de uma batina.
Não pode haver perdão também para as hierarquias, cúmplices, que com o seu silêncio activo ou passivo perpétuaram a pedofilia. Shame on you!!

domingo, abril 25, 2010

Social 19


Já todos sabemos que África é um continente recheado de desigualdades, de abusos, tiranias e atropelos aos direitos humanos. No fundo, a exportação cristalizada do pior da sociedade ocidental. Algumas diferenças profundas porém, existem ainda vincadamente nos dias de hoje e que se prendem com crenças e surpestições.


Vinho, Moçambique, Outubro de 2007

Há dias, em conversa com um amigo moçambicano, de uma geração mais jovem e informada, que trabalha no sector da saúde, dizia-me, para meu espanto e arrepio, que o número de crianças violadas e infectadas com doenças sexualmente transmissíveis que entram todos os dias no Hospital Central de Maputo, é assustador. E explicou-me as causas que dão origem a tão desumana realidade: a crença irracional e ignorante.



Serra da Gorongosa, Moçambique, Março de 2008

Estando eu fora deste contexto, pedi mais explicações. Explicou-me que, uma vez que o número de adultos infectados por sida e por um sem número de doenças venéreas é tão elevado e leva a maioria dos infectados a um destino quase certo, a morte, que acreditam que a única hipótese de salvação e cura é passarem as doenças às crianças, que são puras e, segundo eles, imunes. Sabia de uma série de crenças absurdas que por aqui proliferam, mas não fazia ideia que a realidade descesse a este ponto horrorosamente absurdo.

quarta-feira, abril 14, 2010

Ambiências 54

Monapo, Moçambique, Janeiro de 2010
No príncipio deste ano fiz uma viagem por Moçambique para um destino há muito desejado: A Ilha de Moçambique, a primeira capital deste país. Depois do voo até Nampula, um taxista expedito diz-me que aquela hora (10:00 da manhã) já não haviam chapas (transporte público, vulgo autocarro) para a ilha. Perante a admiração e as queixas lá começou a fazer uns telefonemas. Ao terceiro, parecia ter descoberto uma alternativa de transporte. Um amigo tinha um chapa e, disse, estava com sorte pois estava quase a partir para a ilha. Lá nos apressámos e uns minutos depois encontrámos o tal chapa, cheio de gente, quase a iniciar a viagem.

Combinámos o preço, e demos início à viagem para o destino há tanto esperado. O chapa roncava no esforço que fazia a cada metro que ganhava à estrada e, num ritmo demasiado rápido para o degradado estado geral daquela espécie de viatura, lá nos fomos aproximando do destino.

Cerca de duas a três horas depois, numa longa subida que atravessava uma aldeia, Monapo, o chapa começou a gaguejar. Gaguejou, gaguejou, até que o motorista decidiu parar. De imediato, a tripulação (motorista, cobrador e ajudante) começaram a movimentar-se com uma estratégia que parecia já muitas vezes implementada. Mandaram sair os passageiros, levantaram os bancos da frente deixando um motor cansado e cheio de arames a segurarem as mais variadas peças e iniciaram um trabalho que aparentava ser já muito familiar. É bom sinal, pensei, é uma avaria frequente e para a qual a solução é sobejamente conhecida e experimentada.

Enquanto decorriam os trabalhos de reanimação do chapa, olhei para as pessoas que haviam saído e não deixei de me surpreender pela multidão de passageiros que começaram a procurar lugares à sombra, para iniciarem a espera. Toda aquela situação era encarada com enorme naturalidade e não havia lugar a nenhum protesto.



Monapo, MOçambique, Janeiro de 2010



Sem nada para fazer, passeei pela aldeia que entretanto tinha caído em peso à volta do chapa para gozar a novidade do dia. A excitação era geral e aumentou quando viram que no chapa vinham uns molungos (brancos no dialecto changana). As crianças pediam para serem fotografadas, os adultos pediam dinheiro, enfim, um cenário quotidiano que há muito me habituei.
Entretanto, o motorista-mecânico cortava tampas de garrafinhas de água para improvisar anilhas que eram necessárias colocar não sei bem aonde. Após sucessivas tentativas de reanimação, o motorista-mecãnico declarou o estado de coma do chapa e percebi que a viagem iria acabar naquele lugar no meio de nada. A nossa última referência do trajecto era um cruzamento lá bem atrás que se chamava de "quatro caminhos". Sem sabermos bem o que fazer, decidimos tirar os troleis do tejadilho e começámos a andar a pé, em direcção aos quatro caminhos, à procura de algum veículo com motor que nos pudesse dar boleia até à ilha. A ansiedade começava a pairar nos espíritos porque fazia mais de uma hora que nenhum motor havia passado e a noite aproximava-se a passos largos.

E foi nesse passo que os molungos começaram a andar, puxando troleis, à procura de qualquer coisa que nos fizesse chegar ao destino. Os locais, apreciavam o episódio com uma satisfação crescente perguntando-nos onde íamos. Aos quatro caminhos respondiamos nós sem fazer bem ideia da caminhada que nos esperava.

Finalmente, apareceu uma camioneta que imediatamente parou e viu a oportunidade de fazer uns meticais extras num transporte de molungos. Mais uma vez, negociou-se o preço, desta vez inflaccionado devido às circunstâncias, e lá embarcámos junto das mais variadas mercadorias na caixa da camioneta, a caminho da ilha.

Chegámos ao pôr-do-Sol. À nossa frente uma extensa e fina ponte que deixava circular apenas uma viatura. Uns quilómetros ao fundo, um pequeno pedaço de terra que começava a ganhar definição: A Ilha de Moçambique.



Ilha de Moçambique, Janeiro de 2010

Chegádos à ilha, rapidamente percebemos que esta está dividida em duas zonas, a zona colonial, onde os vestígios de construção colonial estão fortemente presentes e uma outra zona, densamente povoada pelos habitantes locais e onde as palhotas e barracas de tectos de zinco abundam em ruelas sujas e estreitas.

A zona colonial apresenta imensas zonas com casas degradadas, ocupadas por famílias numerosas. A espaços veêm-se casas reabilitadas que deixam adivinhar interiores de tectos altos e divisões espaçosas. As casas aqui tem uma semelhança enorme com as casas senhoriais alentejanas, paredes grossas, caiadas de branco ou em tons ocres, com as faixas de tinta azul ou amarela que rodeiam as janelas e as portas.

Ilha de Moçambique, Janeiro de 2010

Na praça principal, que rodeia a antiga casa do governador, hoje um museu em reabilitação paga por avultados fundos da cooperação portuguesa, existe o típico largo do coreto, sobranceiro ao mar que se encontra a poucos metros.

A ilha está recheada de marcas arquitéctónicas tipicamente portuguesas, igrejas, casas e ruas com marcas do sul de Portugal, o Alentejo. Até os azulejos dos interiores das cozinhas são iguais aos azulejos das casas senhoriais alentejanas com padrões geométricos que criam ilusões ópticas. Os mesmos que vi na minha infância quando ia a Évora passar os natais.



Ilha de Moçambique, Janeiro de 2010
Algumas ruas, onde existem lojas e restaurantes já reabilitados, são ladeadas por arcadas que fazem sombra e tentam dar um ar mais fresco de proteção do Sol inclemente e do calor abrasador e húmido que se faz sentir no Verão. Mais uma vez me parece estar a reviver momentos passados em Évora.


Ilha de Moçambique, Janeiro de 2010

Noutra zona, no cimo de um terraço de uma casa magnífica, agora transformada num simpático e acolhedor restaurante italiano, avista-se numa das ruas principais uma construção imponente mas infelizmente muito degradada: o hospital da Ilha. O aspecto interior faz temer pela saúde dos habitantes da ilha.




Ilha de Moçambique, Janeiro de 2010

Calcorreando as ruelas da ilha cruzamo-nos com uma população maioritariamente muculmana, simpática e hospitaleira. Numa ruela descubro uma madrassa, uma escola muçulmana, onde os meninos desde pequenos aprendem o islão.


Ilha de Moçambique, Janeiro de 2010

A professora convida-me a entrar, explica-me que trabalha com um grupo numeroso de crianças orfãs e assisto a uma demonstação dos meninos. Começam a recitar de cor os textos do Alcorão. Não percebo uma palavra, mas percebo que falam fluentemente, sinal de que a lição está bem aprendida.




Ilha de Moçambique, Janeiro de 2010

E passeando naquelas ruas rapidamente se percebe que o ritmo do tempo é vagaroso, as pessoas pouco têm que fazer e matam o tempo esperando que qualquer coisa surja, qualquer coisa lhes dê motivos para se ocuparem. Parecem de facto ancorados num tempo que flui lentamente, sem sonhos e sem grandes novidades que os animem.
  • Todas as fotografias expostas têm a permissão dos respectivos autores.
  • Exceptuam-se apenas as fotos da Secção Biografias.
  • O Blografias agradece a todos os autores que participam neste espaço de divulgação de fotografia
  • Optimizado para o IE 7.0 com resoluções de 1280 por 768 ou superiores

    Espaço criado e gerido por Francisco Máximo

    Blografias com luz - 2005-2012