quarta-feira, janeiro 28, 2009

Ambiências 48


Maputo em Janeiro é o equivalente a Lisboa em Agosto. Anda tudo parado e nada desenvolve. As empresas praticamente desertas e todos os negocios estao em banho-maria.


Nestas condiçoes resta pouco para fazer que nao seja fazer também pequenas ferias nos fins-de-semana.


Relativamente perto de Maputo encontra-se o Kruger National Park, um parque natural de dimensoes proporcionais ao tamanho da Africa do Sul.



Este parque, célebre em toda a Africa, reune uma enorme variedade de habitats e de espécies selvagens.


Ao fim de um dia a percorrer e explorar a enorme rede de caminhos e estradas que o Parque oferece é possivel ter observado imensas espécies selvagens e, com um pouco de sorte, ver os big five.


Kruger Park, Africa do Sul, Janeiro de 2009
Os big five sao: elefantes, leopardos, rinocerontes, bufalos e leos.


Bem tentei olhar horas e horas para todas as arvores à procura de leopardos mas ainda nao foi desta...

terça-feira, janeiro 13, 2009

Ambiências 47


Porque o mundo é cada vez mais pequeno, tão depressa estamos em Moçambique como em Portugal como em qualquer outra parte do mundo. Depois de Lisboa, dos encontros familiares para celebrar a época da família e dos amigos que mais prezo, uma passagem por Itália, um país que cada vez mais me é familiar. Em Itália, decidiu-se celebrar o novo ano em Veneza, cidade com uma carga romântica especial e com um ambiente, de facto, único no mundo.

Em Veneza, a passagem de ano era subordinada ao tema do amor, “Love 2009” e consistia basicamente em celebrar a entrada do novo ano com um beijo colectivo na Praça de S. Marcos. Pretendiam os organizadores do evento demonstrar ao mundo que o amor ultrapassa todas as barreiras sociais, credos, cor e raças e que o entendimento entre todos os povos é sempre possível desde que se abra o coração aos outros. Uma forma alternativa de combater a depressão colectiva que de repente e sem aviso se abateu sobre o mundo ocidental.
O conceito agradou-nos, (não fazia sentido celebrar o amor sozinho) e o local parecia o mais apropriado para o efeito e, assim, partimos rumo a Veneza, à Praça de S. Marcos, armados de algumas garrafas de espumante Franciacorta, com o peitos abertos e receptivos à celebração do amor simbolizado num beijo colectivo para iniciar 2009.

Caminhámos por entre as estreitas ruelas de Veneza debaixo de um frio intenso e anormal, aquecidos pelas emoções que carregávamos connosco e pelo tal espumante que já borbulhava dentro dos nossos corpos. As ruas estavam cheias de viajantes vindos de toda a parte e fervilhavam de boa disposição e, claro, não faltavam pequenos bares que serviam de paragens quase obrigatórias para repor o calor dos corpos que se começavam a ressentir da temperatura exterior. Chegados à Praça de S. Marcos, o cenário prometia. Um palco ao fundo e virado para a Basílica de S. Marcos animava as dezenas de milhares de espectadores que iam festejando a ocasião.

Por acaso, ou não, porque estas histórias do acaso tem pano para mangas, e agora, já em Maputo com um calor de inchar, falar em mangas é coisa que me afronta, o acaso, dizia eu, fez com que no exacto momento em que chegámos ao local do evento, subisse ao palco um casal que ia afirmar o tal conceito de que o amor é universal. Ela, moçambicana, de Pemba – local que nos havia encantado 3 meses antes – e ele austríaco. A coincidência foi enorme, porque em Pemba, havíamos estado em casa de um austríaco que estava com uma moçambicana para festejar o seu aniversário.

Esta coincidência encheu-nos de alegria e surpresa e ainda hoje não sabemos se seriam eles ou não. O que sabemos é que mesmo numa passagem de ano em Itália a terra onde agora vivemos estava representada e fez-se ouvir.

Chegada a meia-noite, o amor celebrou-se colectivamente com uma intensidade e emoção genuínas. Depois, o tradicional fogo de artifício e, enquanto toda a gente olhava para o ar para apreciar as cores e os efeitos do fogo, começaram a cair flocos do céu. 2009 brindou-nos a todos com neve que começou nessa altura a cair intensamente. Eu, português habituado a climas bem mais temperados, vivi o momento com regozijo. Um regozijo que entretanto deu lugar à estupefacção porque findo o fogo de artifício, o palco apagou-se e a festa para todos aqueles milhares de pessoas, acabou!

Nem queria acreditar que um evento daqueles, naquela ocasião, acabasse no exacto momento em que deveria começar! A alternativa para os milhares de pessoas era a neve, os pequenos bares, as ruas labirínticas ou as banheiras quentes cheias de espuma.

A Itália, como o resto da Europa, andam a viver momentos incaracterísticos e estão a perder qualidades. Cada vez mais parece que já não é o que era!

Bem vindos a Moçambique!

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Ambiências 46

Foto de Alberto Monteiro, Bairro Alto, Lisboa, Portugal


Lisboa.

Um porto de partida para o mundo, para o desconhecido, um ponto de encontro de culturas, de raças e de amigos. Este fim-de-semana será novamente um local onde se celebrará a chegada de uns e a partida de outros.

Que melhor local para celebrar estes encontros? O Bairro Alto, e mais precisamente a zona do Adamastor. Porque simbolicamente o Adamastor é sinónimo de reflexão, de perguntas incómodas, de distanciamento da cultura mainstream, de coragem e ousadia. E também porque é um lugar alto, onde se vê o presente e se perspectiva o futuro.

Sempre ouvi dizer que Paris é a cidade das luzes, mas para mim, das artificiais, porque a verdadeira cidade da luz natural é Lisboa com toda a luminosidade que vem do Sol e depois do rio e do mar, uma luz quente e suave que envolve todos os que têm tempo para a ver e sentir.

E vai ser aqui, neste lugar, que se celebrará a amizade e, espero, se faça luz que ilumine os caminhos a seguir nos próximos tempos.

Svegliarci insieme e goderci Lisbona. Salute!

Ah, que saudades de Lisboa!

quarta-feira, novembro 19, 2008

Pele 27

Maputo, Moçambique, Novembro de 2008Foto de Francisco Máximo

Ultimamente ando a ler Mia Couto para matar o tempo que teima em não passar quando se está em convalescença quando dou com uma passagem num livro de contos que me fez sorrir, digo sorrir porque quando as costelas estão partidas, o peito não permite risadas.
" Quando se ama o coração engrandece. Mas o amor cresce mais rapidamente que o peito. Tens costelas que aguentem?"

sexta-feira, novembro 07, 2008

Intimidades 19

Beira Interior, Portugal, Julho de 2005
Foto de Francisco Máximo



A tattoo das Canárias já se apagou, mas o seu significado não.

Não dês cabo de mim... nem de ti!


segunda-feira, novembro 03, 2008

Ambiências 45

Era final de tarde e os últimos raios de Sol faziam as despedidas do dia. Um dia tranquilo, passado numa praia quase privativa com o mar quente e salgado que vinha em ondas suaves e cadenciadas. O verde esmeralda da água combinava com com o verde das árvores que banhavam as raízes na areia fina e clara. Ao longe, e sobranceiro ao mar, um enorme embondeiro guardava a praia e era o farol diurno daquela pequena baía.
Depois do corpo saciado por aquele mar cristalino, subi um pequeno trilho que dava acesso a umas pequenas casas. No caminho, cruzei-me com um moçambicano macua que estava a preparar numa fogueira algo para comer. Parei, saudámo-nos e à boa maneira moçambicana, sentei-me com ele e começámos a conversar.
Disse que tinha nascido mais a norte de Pemba, numa pequena aldeia a caminho de Quissanga. Agora trabalhava em Pemba, guardava aquelas casas para onde eu me dirigia. Tomava também conta dos jardins e cuidava para que eles estivessem sempre verdes e viçosos. E a conversa decorria naquele ritmo paciente dos jardineiros à medida que ele ia mexendo o milho que tinha posto a torrar numa pequena lata que fazia os serviços de panela.
Então, começou-me a contar o segredo daquela comida. Você torra o milho, devagar para não queimar e não rebentar e, quando ficar amarelo torrado está pronto. Aí, você deixa arrefecer e mistura com amendoim e uma raiz e faz uma pasta. Quando a pasta estiver bem mexida, faz uns bolinhos e depois come. Quando você comer vai ficar animado, dizia com um ar e sorriso meio malandro. Animado? perguntei. Sim, disse ele já a rir, você toma isto quando está fraco e depois consegue estar uma noite inteira animado com uma mulher. Ai sim? Sim! anima mesmo, umas sete horas! Rimo-nos e deixámo-nos estar num silêncio pacífico apenas cortado pelo crepitar do lume.
Perguntei-lhe que mais segredos sabia, e ele disse-me que se eu quisesse saber segredos que falasse com as mulheres, com aquelas que pintam a cara. Despedimo-nos e eu continuei o meu caminho, feliz com aquele encontro de paz e de cultura.
Ontem, enquanto perguiçava à beira mar, lia um livro de contos do Mia Couto, e deparei-me com uma frase de um provérbio macua que me fez recordar este e outros encontros com aquele povo:
"O barco de cada um está em seu próprio peito."

quarta-feira, outubro 29, 2008

Modos de Vida 22


No interior da fortaleza de S. João, para além de obras de restauro encontram-se as oficinas dos artesãos de "prata" do Ibo. Aqui, eles realizam uma operação de "estender" o fio. O fio metálico inicialmente de uma determinada espessura vai passando sistematicamente por aquela máquina com calhas de diametros cada vez mais pequenos até que o fio sai completamente filiforme para depois ser trabalhado pelos artesãos. Uma operação que demora cerca de 10 minutos de esforço suado para um cabo de 5 metros.

Quando lá estava, lembrei-me que deveria haver uma máquina assim para os gordos "magnatas" dos lucros pornográficos que originaram esta crise financeira mundial. Depois de passarem por este processo talvez fossem perdendo gradualmente a ganância e ganhando um pouco mais de ética.

sábado, outubro 25, 2008

Ambiências 44

Ilha de Ibo, Moçambique, Outubro de 2008




Uma das principais fontes de receita da ilha de Ibo ( arquipélago das Quirimbas ) é o artesanato. Os artesãos feitos de paciência e arte, realizam trabalhos riquissimos de bijuteria. Um dos locais de fabrico e venda deste artesanato é precisamente na fortaleza de S. João, um forte português construído no séc. XVIII e que mais tarde serviu de prisão política nos tempos da PIDE.
A bijuteria feita em rendilhada em metal fino é depois sujeita a um tratamento para ficar brilhante. Daí que seja chamada a prata de Ibo.

Esta bijuteria está a ser exportada para Portugal e Itália e vendida em lojas de comércio justo. Por um lado é uma forma de aumentar a oferta de países oriundos de língua portuguesa no comércio justo e por outro apoia estas famílias no acesso à educação dos filhos.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Retratos 29

Arquipélago das Quirimbas, Moçambique, Outubro de 2008

Esta semana tive o privilégio de poder visitar Pemba e o arquipélago das Quirimbas. Fiquei fascinado com a beleza natural desta região de Moçambique, dois ex-libris deste país.
O mar, os vastos e densos mangais, as florestas recheadas de embondeiros são verdadeiramente soberbos.
Mas, para mim, a pérola destes lugares magníficos é o povo macua. Um povo hospitaleiro, sorridente e feliz com a harmonia da natureza envolvente. Um povo cheio de misticismo e sabedoria.
Dizem eles, "tende o coração em paz como o camaleão ao apanhar as vespas" ou "a paciência é amarga mas o seu fruto é doce".
Apaixonei-me!

domingo, outubro 12, 2008

Pele 26

Savane, Moçambique, Setembro 2008



Foto de Francisco Máximo


I'm so tired of playing,

Playing with this bow and arrow,

Gonna give my heart away,

Leave it to the other girls to play,

For I've been a temptress too long.


Hmm just,

Give me a reason to love you,

Give me a reason to be,

A woman,

I just wanna be a woman.


From this time, unchained,

We’re all looking at a different picture,

Through this new frame of mind,

A thousand flowers could bloom,

Move over, and give us some room.


Yeah,

Give me a reason to love you,

Give me a reason to be,

A woman,

I just want to be a woman.


So don't you stop, being a man,

Just take a little look from our side when you can,

Show a little tenderness,

No matter if you cry.

Give me a reason to love you,

Give me a reason to be,

A woman,

It's all I wanna be is all woman.


For this is the beginning of forever and ever,

It's time to move over ,

So I want to be.


Hmm just,

Give me a reason to love you.


Portishead, Glory Box.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Séries 29


Por questões de trabalho, tenho viajado bastante diariamente nas estradas de Moçambique. Na sexta-feira assisti, infelizmente, a uma cena completamente surreal por parte da polícia moçambicana.

Era noite, cerca das 21:00 e vinha de Chimoio para a Beira. Viajar de noite nestas estradas é uma aventura, porque os moçambicanos andam a pé e de bicicleta ao longo da estrada como se estivessem a passear em casa. E andam sem qualquer tipo de iluminação ou sinalização. O motorista que me acompanha diariamente, felizmente, é cauteloso e passa a viagem toda a buzinar.

Quando estávamos a passar por uma pequena cidade já perto da Beira, Dondo, passa por nós um carro meio tuning em alta velocidade mesmo em frente a um posto policial. Cerca de 2 km à frente do local da ultrapassagem, apercebemo-nos que o carro está parado no meio da estrada e a fazer marcha-atrás. Aproximamo-nos devagar e quando estamos a chegar vemos um corpo de um homem estendido no meio da estrada, projectado para a outra faixa de rodagem, numa posição tão torcida que se percebia que haveriam várias fracturas nas pernas, talvez coluna e sabe-se lá mais onde.

“Porra, o gajo foi atropelado!” diz o motorista. O condutor do carro da frente, um jovem moçambicano, sai do carro, olha para o homem e fica em pânico sem saber o que fazer.
“tem que afastar o homem do meio da estrada e colocá-lo na berma!” diz o motorista.
“estou a pedir ajuda” diz o jovem. “Estou a pedir que chamem ajuda”. O motorista diz que sim, inverte a marcha e dirige-se rapidamente para o posto policial que havia 2 km atrás.

Chegamos, vemos imediatamente um polícia e o motorista conta-lhe o sucedido.
“tá a respirar?” pergunta o polícia.
“Está, não está ainda morto” diz o motorista. “vão lá e chamem uma ambulância”
“Não posso sair daqui agora” diz o polícia “para irmos lá depois tínhamos que fazer medições…”
Espantado com a conversa intervenho pela primeira vez “ Mas chame uma ambulância! O homem precisa de ir para o hospital”
“ O condutor que o atropelou é que tem a obrigação de o levar para o hospital!” afirma o polícia como se não fosse nada com ele.
“ mas o homem está todo partido, precisa de tratamento médico” insisto.
“o condutor que o leve!” reafirma o polícia.
“Espero que você nunca precise de uma ambulância! Vamos embora que já estamos atrasados!” digo eu para o motorista, zangado e incrédulo com a atitude daquele animal.

E quando chegamos ao local do acidente, ajudamos a transportar aquele corpo todo disforme para o carro. Não sei se o matámos enquanto o transportávamos para o carro… no final e para rematar, diz o motorista: “Vá lá, o homem teve sorte, o condutor até parou, que a esta hora, xii… ninguém pára!”

quarta-feira, setembro 17, 2008

Ambiências 43



Quis a vida que o trabalho me trouxesse de novo para as províncias moçambicanas que rodeiam o Parque Nacional da Gorongosa. Claro que estando tão perto, impunha-se uma visita, duas visitas, tantas quantos os fins-de-semana me permitirem enquanto por aqui andar nas redondezas.

Há uns dias atrás pensava nas memórias que vamos colectando ao longo da vida e nos encontros e desencontros que se estabelecem entretanto. Ter regressado ao parque após uns meses de ausência foi uma vivência aconchegante. Fui recebido com enorme carinho e calor e aproveitei para matar saudades de alguns bradas e sisters. Abraços, confidências, desabafos, alegrias e sobretudo amizade.
Claro que se impunha uma festa de arromba pela noite dentro e uns safaris para voltar a encher a alma daquela beleza natural.

Há gente boa, muito boa! Inclusive aqueles e aquelas que nos dizem "Você não presta mesmo! Atão não vai lá se despedir? Tem lá 2M!"

Até, gente boa!
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