No interior da fortaleza de S. João, para além de obras de restauro encontram-se as oficinas dos artesãos de "prata" do Ibo. Aqui, eles realizam uma operação de "estender" o fio. O fio metálico inicialmente de uma determinada espessura vai passando sistematicamente por aquela máquina com calhas de diametros cada vez mais pequenos até que o fio sai completamente filiforme para depois ser trabalhado pelos artesãos. Uma operação que demora cerca de 10 minutos de esforço suado para um cabo de 5 metros.
Quando lá estava, lembrei-me que deveria haver uma máquina assim para os gordos "magnatas" dos lucros pornográficos que originaram esta crise financeira mundial. Depois de passarem por este processo talvez fossem perdendo gradualmente a ganância e ganhando um pouco mais de ética.
quarta-feira, outubro 29, 2008
Modos de Vida 22
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Francisco Máximo
sábado, outubro 25, 2008
Ambiências 44

Uma das principais fontes de receita da ilha de Ibo ( arquipélago das Quirimbas ) é o artesanato. Os artesãos feitos de paciência e arte, realizam trabalhos riquissimos de bijuteria. Um dos locais de fabrico e venda deste artesanato é precisamente na fortaleza de S. João, um forte português construído no séc. XVIII e que mais tarde serviu de prisão política nos tempos da PIDE.
A bijuteria feita em rendilhada em metal fino é depois sujeita a um tratamento para ficar brilhante. Daí que seja chamada a prata de Ibo.
Esta bijuteria está a ser exportada para Portugal e Itália e vendida em lojas de comércio justo. Por um lado é uma forma de aumentar a oferta de países oriundos de língua portuguesa no comércio justo e por outro apoia estas famílias no acesso à educação dos filhos.
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Francisco Máximo
quinta-feira, outubro 23, 2008
Retratos 29

Esta semana tive o privilégio de poder visitar Pemba e o arquipélago das Quirimbas. Fiquei fascinado com a beleza natural desta região de Moçambique, dois ex-libris deste país.
O mar, os vastos e densos mangais, as florestas recheadas de embondeiros são verdadeiramente soberbos.
Mas, para mim, a pérola destes lugares magníficos é o povo macua. Um povo hospitaleiro, sorridente e feliz com a harmonia da natureza envolvente. Um povo cheio de misticismo e sabedoria.
Dizem eles, "tende o coração em paz como o camaleão ao apanhar as vespas" ou "a paciência é amarga mas o seu fruto é doce".
Apaixonei-me!
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Francisco Máximo
domingo, outubro 12, 2008
Pele 26

Foto de Francisco Máximo
I'm so tired of playing,
Playing with this bow and arrow,
Gonna give my heart away,
Leave it to the other girls to play,
For I've been a temptress too long.
Hmm just,
Give me a reason to love you,
Give me a reason to be,
A woman,
I just wanna be a woman.
From this time, unchained,
We’re all looking at a different picture,
Through this new frame of mind,
A thousand flowers could bloom,
Move over, and give us some room.
Yeah,
Give me a reason to love you,
Give me a reason to be,
A woman,
I just want to be a woman.
So don't you stop, being a man,
Just take a little look from our side when you can,
Show a little tenderness,
No matter if you cry.
Give me a reason to love you,
Give me a reason to be,
A woman,
It's all I wanna be is all woman.
For this is the beginning of forever and ever,
It's time to move over ,
So I want to be.
Hmm just,
Give me a reason to love you.
Portishead, Glory Box.
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Francisco Máximo
segunda-feira, setembro 29, 2008
Séries 29
Por questões de trabalho, tenho viajado bastante diariamente nas estradas de Moçambique. Na sexta-feira assisti, infelizmente, a uma cena completamente surreal por parte da polícia moçambicana.
Era noite, cerca das 21:00 e vinha de Chimoio para a Beira. Viajar de noite nestas estradas é uma aventura, porque os moçambicanos andam a pé e de bicicleta ao longo da estrada como se estivessem a passear em casa. E andam sem qualquer tipo de iluminação ou sinalização. O motorista que me acompanha diariamente, felizmente, é cauteloso e passa a viagem toda a buzinar.
Quando estávamos a passar por uma pequena cidade já perto da Beira, Dondo, passa por nós um carro meio tuning em alta velocidade mesmo em frente a um posto policial. Cerca de 2 km à frente do local da ultrapassagem, apercebemo-nos que o carro está parado no meio da estrada e a fazer marcha-atrás. Aproximamo-nos devagar e quando estamos a chegar vemos um corpo de um homem estendido no meio da estrada, projectado para a outra faixa de rodagem, numa posição tão torcida que se percebia que haveriam várias fracturas nas pernas, talvez coluna e sabe-se lá mais onde.
“Porra, o gajo foi atropelado!” diz o motorista. O condutor do carro da frente, um jovem moçambicano, sai do carro, olha para o homem e fica em pânico sem saber o que fazer.
“tem que afastar o homem do meio da estrada e colocá-lo na berma!” diz o motorista.
“estou a pedir ajuda” diz o jovem. “Estou a pedir que chamem ajuda”. O motorista diz que sim, inverte a marcha e dirige-se rapidamente para o posto policial que havia 2 km atrás.
Chegamos, vemos imediatamente um polícia e o motorista conta-lhe o sucedido.
“tá a respirar?” pergunta o polícia.
“Está, não está ainda morto” diz o motorista. “vão lá e chamem uma ambulância”
“Não posso sair daqui agora” diz o polícia “para irmos lá depois tínhamos que fazer medições…”
Espantado com a conversa intervenho pela primeira vez “ Mas chame uma ambulância! O homem precisa de ir para o hospital”
“ O condutor que o atropelou é que tem a obrigação de o levar para o hospital!” afirma o polícia como se não fosse nada com ele.
“ mas o homem está todo partido, precisa de tratamento médico” insisto.
“o condutor que o leve!” reafirma o polícia.
“Espero que você nunca precise de uma ambulância! Vamos embora que já estamos atrasados!” digo eu para o motorista, zangado e incrédulo com a atitude daquele animal.
E quando chegamos ao local do acidente, ajudamos a transportar aquele corpo todo disforme para o carro. Não sei se o matámos enquanto o transportávamos para o carro… no final e para rematar, diz o motorista: “Vá lá, o homem teve sorte, o condutor até parou, que a esta hora, xii… ninguém pára!”
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Francisco Máximo
quarta-feira, setembro 17, 2008
Ambiências 43
Quis a vida que o trabalho me trouxesse de novo para as províncias moçambicanas que rodeiam o Parque Nacional da Gorongosa. Claro que estando tão perto, impunha-se uma visita, duas visitas, tantas quantos os fins-de-semana me permitirem enquanto por aqui andar nas redondezas.
Há uns dias atrás pensava nas memórias que vamos colectando ao longo da vida e nos encontros e desencontros que se estabelecem entretanto. Ter regressado ao parque após uns meses de ausência foi uma vivência aconchegante. Fui recebido com enorme carinho e calor e aproveitei para matar saudades de alguns bradas e sisters. Abraços, confidências, desabafos, alegrias e sobretudo amizade.
Claro que se impunha uma festa de arromba pela noite dentro e uns safaris para voltar a encher a alma daquela beleza natural.
Há gente boa, muito boa! Inclusive aqueles e aquelas que nos dizem "Você não presta mesmo! Atão não vai lá se despedir? Tem lá 2M!"
Até, gente boa!
Há uns dias atrás pensava nas memórias que vamos colectando ao longo da vida e nos encontros e desencontros que se estabelecem entretanto. Ter regressado ao parque após uns meses de ausência foi uma vivência aconchegante. Fui recebido com enorme carinho e calor e aproveitei para matar saudades de alguns bradas e sisters. Abraços, confidências, desabafos, alegrias e sobretudo amizade.
Claro que se impunha uma festa de arromba pela noite dentro e uns safaris para voltar a encher a alma daquela beleza natural.
Há gente boa, muito boa! Inclusive aqueles e aquelas que nos dizem "Você não presta mesmo! Atão não vai lá se despedir? Tem lá 2M!"
Até, gente boa!
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Francisco Máximo
quinta-feira, setembro 11, 2008
Pele 25
A vida corria com a cadência de sempre e ele, que se considerava um auto-suficiente, um solitário, um sobrevivente de outras vidas, costumava cantar amiúde uma canção do Manu Chao, bem latina, bem ritmada e quente para se aquecer nas noites frias, que dizia:
Me llaman el desaparecido
Cuando llega ya se ha ido
Volando vengo, volando voy
Deprisa deprisa a rumbo perdido
Cuando me buscan nunca estoy
Cuando me encuentran yo no soy
El que está enfrente porque ya
Me fui corriendo más allá
Me dicen el desaparecido
Fantasma que nunca está
Me dicen el desagradecido
Pero esa no es la verdad
Yo llevo en el cuerpo un dolor
Que no me deja respirar
Llevo en el cuerpo una condena
Que siempre me echa a caminar
Yo llevo en el cuerpo un motor
Que nunca deja de rolar llevo en el alma un camino
Destinado a nunca llegar
Cuando me buscan nunca estoy
Cuando me encuentran yo no soy
El que esta enfrente por que yame fui corriendo mas alla
Me dicen el desaparecido
Cuando llega ya se ha ido
E era nesta aparente contradição que vivia, a contradição de querer, de dar, de receber e de não estar. É, sentia-se por vezes um espectro, um fantasma que marcava os lugares por onde passava mas que era incapaz de se envolver neles, uma espécie de odor que pairava no ar que, por vezes, chegava até a impregnar. Mas, vá-se lá saber porquê, apavorava-o cheiros de tocas e de pessoas que se tornavam demasiado familiares. Preferia continuar solitário sem ter hábitos rotineiros com ele e com os outros.
Porém, porque a vida não é linear e porque, afinal, por muito lobo que se seja, há sempre lugar para o imprevisto, para a descoberta, para a rendição perante um cheiro novo, deu por si a cantar outras músicas, outras letras, outros ritmos igualmente quentes mas muito mais aconchegantes para o seu espírito menos rebelde e solitário do que imaginara.
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que é nosso.
São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo o que é nosso
é excessivo.
E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a espádua,
são os teus olhos,
depois o grito.
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
de outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.
E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa.
Sem aviso viu-se a procurar silêncios, não os silêncios que costumava ter na solidão, mas os silêncios cúmplices, os mais dificeis de ouvir, os mais confortáveis. Aqueles que se partilham no sono.
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Diogo Moreira
quinta-feira, agosto 28, 2008
Pele 24
Sonhei contigo e acordei a pensar que preciso de ti, e quanto mais penso em ti mais tenho a certeza de que preciso de ti, e não vale a pena enumerar a quantidade de razões que me levam a ter esta certeza de que contigo, a vida teria mais poesia, eu sei que tu dizes que eu vejo poesia em todo o lado e que me encanto e deixo encantar, mas é precisamente porque tu sabes isso tudo e que compreendes esta minha maneira de ser, que és, afinal, a que me ajuda a escrever os poemas da minha vida. Tu és a única que consegue penetrar nestas camadas cada vez mais grossas que me compõem e por isso mesmo és a única que me consegues fazer sair delas. Sinto-me cansado e é por isso que hoje acordei a pensar em ti.
Quem és tu? se ao menos existisses... Adorava conhecer-te!...
...ou talvez não, porque tal como a vida, as páginas do nosso livro de poemas é finita e é sempre com pesar que se chega ao fim do livro, que se encerra mais uma história, porque é mais uma camada de revestimento que se coloca nos nossos seres.
Olha, afinal, pensando bem, já não te quero!... mas preciso de ti…!
Dizia o poeta Eugénio de Andrade que "Passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos: se alguém chama por nós não respondemos, se alguém nos pede amor não estremecemos, como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão, apodrecidos."
Recuso essa ideia e é por isso mesmo que pensei em ti. Pergunto-me se será pela cor dos olhos, pelo cheiro da tua pele, pela energia que emanas, ou pela forma como me amas…?
Recuso essa ideia e é por isso mesmo que pensei em ti. Pergunto-me se será pela cor dos olhos, pelo cheiro da tua pele, pela energia que emanas, ou pela forma como me amas…?
Não faço ideia, e é isso que me inquieta mas também é isso que me move. Quantos peomas compõem um livro? Quantas rimas ficarão por escrever?
"É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rio
se manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor,
é urgente permanecer."
Preciso de mim!... preciso de ti!
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Z
terça-feira, agosto 19, 2008
Dia Internacional da Fotografia

Foto de Eduardo Gageiro
Hoje é o dia internacional da fotografia. Quem diria? não fazia ideia da existência deste dia. Seja como for é um óptimo pretexto para se colocar neste espaço uma foto de um grande fotojornalista português: Eduardo Gageiro.
Haveriam muitas fotos do espólio de Gageiro que poderiam ser aqui colocadas. A selecção torna-se dificil. Escolhi um foto, das muitas, que na minha opinião fez história e que justifica a importância da fotografia. A rendição da PIDE em Abril de 1974.
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Eduardo Gageiro
segunda-feira, agosto 18, 2008
Intimidades 18
Cantava o Luís Represas em tempos, uma canção que não sei, e sou incapaz de reproduzir de memória, precisamente sobre a memória. E dizia ele que “as memórias são como livros escondidos no pó”. Mas são livros especiais, com muito menos páginas do que as vivências, porque não contam a história toda, mas só aquilo que se quer recordar. Uma espécie de resumos subliminares das coisas boas que se quis guardar. Dizia também um filósofo a este propósito que “A memória age como a lente convergente na câmara escura: reduz todas as dimensões e produz, dessa forma, uma imagem bem mais bela do que o original”
É tanto assim que se se quiser reconstituir um momento passado vivido por duas ou mais pessoas, elas, em conjunto, terão uma história bem mais rica e diferente do que se fosse contada por apenas uma.
É exactamente sobre este confronto de memórias sobre a mesma história que me apetece dizer que no essencial, a tela, a matriz, o cenário são os mesmos. As cores e os pormenores dos traços com que se enchem a tela é que são diferentes e essas diferenças são determinantes no relato de uma história ou de um acontecimento.
Vem isto a propósito de memórias passadas que revisitei quando estive em Portugal e memórias futuras que ficarão daqui de Moçambique ou de outro lado qualquer onde possa estar e vem também a propósito de que, no essencial, gosto das memórias que vou colectando. E sinto-me em paz. Uma paz, porém, irrequieta.
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Fátima Serrão Lopes
sexta-feira, agosto 15, 2008
Séries 28
Não, definitivamente o dia não estava a acabar como previsto. Dito assim até parece que havia algum plano para o fim do dia, que não havia, porque o Destino – estranho nome para um gajo que nem acreditava no conceito, nem nele próprio – acreditava que o melhor era deixar correr o tempo e os acontecimentos e interferir apenas quando a coisa ou descambava ou se vislumbrava uma alternativa a considerar.
Naquela noite decidiu convidar a Estele para uma saída cultural, uma sua conhecida de amigos comuns, um conhecimento que ainda gatinhava e que pensou poderia começar a andar a partir daquela noite, uns passos tímidos mas seguros para uma relação de amizade, porque a Estela era boa onda mas não o entusiasmava nem atraía para mais do que umas francas gargalhadas.
E a noite corria e escorria, umas cervejas atrás de outras e mais sabe-se lá o quê, música, dança e a subtileza feminina da Estele caiu por terra e deu lugar à investida, directa e sem mais. Ele, que a tinha flirtado infantilmente, sem esperar rigorosamente nada mais do que o encanto entre duas pessoas, foi apanhado desprevenido pela investida. Meio tolhido do álcool não conseguiu nem fez esforço para contrariar a investida e só pensava lá no fundo que não era bem aquilo que ele queria, mas a espuma da cerveja já tinha derrubado os muros da vontade e dali para a frente seria o que o destino, não ele que já não tinha qualquer capacidade de decisão, quisesse.
Bem vistas as coisas, argumentou em pensamentos entaramelados justificando-se para si próprio, até era uma mulher elegante, curvas bem feitas e suficientemente pronunciadas, uma pele dourada e tentadora, cabelos fartos e vistosos e uma voz bastante sensual. De qualquer maneira sentia que já não conduzia nada e que era conduzido.
O pior é que tinha mesmo que conduzir, tinha ainda que fazer a auto-estrada até casa e tinha que a conduzir, ele que já não tinha mão em nada porque os acontecimentos precipitavam-se a uma velocidade superior ao seu poder de encaixe.
No caminho pela auto-estrada decidiu, talvez pela reserva de lucidez que emergia para o fazer conduzir o carro, que em vez de não ter a mão em nada era tempo de deitar a mão a qualquer coisa de palpável e apreciar aquele belo corpo que ali estava disponível. E assim fez, com um sorriso pateta que parecia dizer agora sou eu que mando a minha vontade que afinal é a tua, começou a tocá-la com uma mão enquanto segurava o volante com a outra. E ela agradeceu, sentiu que a investida que tinha feito até então começava a dar os frutos que desejava e que finalmente o prazer carnal que ansiava, chegava. Despiu-se ali mesmo no banco do carro de forma a poder absorver em todos os poros os toques que desejava e nem o facto dele estar a partilhar a atenção à estrada e ao seu corpo a incomodava, pelo contrário, estimulava-a ainda mais. Pernas abertas e pés sobre o tabliê, a posição que escolheu para a recepção de outra pele que não a dela.
Os primeiros raios de luz já se faziam ver durante a viagem. Ela, satisfeita com a forma como o dia despontava, ele, aturdido, meio autómato de uma vontade que não era a dele e que não conseguia contrariar. Chega o fim da auto-estrada, o anúncio das portagens e ela, abrindo os olhos devido ao abrandamento da marcha, olha para a trajectória escolhida e pergunta meio incrédula, meio horrorizada: “ Não tens VIA VERDE???”
Ele responde com o ar mais natural e espantado com tamanha incrudelidade: “ ...não…”
No caminho pela auto-estrada decidiu, talvez pela reserva de lucidez que emergia para o fazer conduzir o carro, que em vez de não ter a mão em nada era tempo de deitar a mão a qualquer coisa de palpável e apreciar aquele belo corpo que ali estava disponível. E assim fez, com um sorriso pateta que parecia dizer agora sou eu que mando a minha vontade que afinal é a tua, começou a tocá-la com uma mão enquanto segurava o volante com a outra. E ela agradeceu, sentiu que a investida que tinha feito até então começava a dar os frutos que desejava e que finalmente o prazer carnal que ansiava, chegava. Despiu-se ali mesmo no banco do carro de forma a poder absorver em todos os poros os toques que desejava e nem o facto dele estar a partilhar a atenção à estrada e ao seu corpo a incomodava, pelo contrário, estimulava-a ainda mais. Pernas abertas e pés sobre o tabliê, a posição que escolheu para a recepção de outra pele que não a dela.
Os primeiros raios de luz já se faziam ver durante a viagem. Ela, satisfeita com a forma como o dia despontava, ele, aturdido, meio autómato de uma vontade que não era a dele e que não conseguia contrariar. Chega o fim da auto-estrada, o anúncio das portagens e ela, abrindo os olhos devido ao abrandamento da marcha, olha para a trajectória escolhida e pergunta meio incrédula, meio horrorizada: “ Não tens VIA VERDE???”
Ele responde com o ar mais natural e espantado com tamanha incrudelidade: “ ...não…”
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Maria Flores
quarta-feira, julho 16, 2008
Séries 27

Regressei durante um mês e meio à terra natal, o cantinho da Europa. Acho que não exagero se disser que a minha percepção é que algo mudou neste ano que passou e mudou infelizmente para pior. A depressão colectiva que já dava sinais no ano passado instalou-se e, segundo parece, para ficar por muitos e penosos anos.
Crise é a palavra mais ouvida e escrita neste país: crise energética, crise imobiliária, crise alimentar, crise social, crise bolsista, crise financeira. Desemprego, pobreza, nova pobreza, falências, sobre-endividamento, insegurança, violência urbana, fraudes, são os chavões que fazem manchetes na comunicação social. Não há opinador, comentador e político que não falem e não vaticinem que a crise está e para durar.
O curioso é que nesta crise, aqueles que a anunciam que a originaram e que a gerem, não parecem nada afectados por ela. Na verdade a crise é para os outros e não para eles. Lucros indecorosos das grandes empresas que nunca ganharam tanto, ordenados e autodistribuição de prémios verdadeiramente escandalosos e indecorosos que contrastam com a miséria crescente à sua volta. Uma verdadeira lógica de terra queimada que será impossível de sustentar. O exemplo paradigmático é o da cimeira dos G-8 no Japão onde o tema em cima da mesa era a fome, a crise alimentar e ambiental. Ora os 8 e mais uns amigos refastelaram-se com um jantar que nos dias que correm seria facilmente catalogado de pornográfico!
No meio disto encontro uma franja social portuguesa frequentadora da noite que vive a vida como se ela fosse acabar amanhã porque o futuro anda demasiado incerto: Imediatismo nas relações como se fossem um sorvete, imediatismo na atitude como se o álcool e as drogas deixassem abrir as portas que sobriamente estariam fechadas. Porque em alturas de depressão nada como uns aditivos para colorir o cinzentismo paira no ar, que pintam o mundo de amor fácil e que mostram as "realidades" que se querem mirar.
No final, tendo a achar que África, com todos os desequilíbrios, toda a humidade e calor, é um local de descanso e de repouso.
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Alberto Monteiro
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